Sandra Cecília Peradelles: a maternidade na quarentena... Vai passar! - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião30/03/2020 | 07h00Atualizada em 30/03/2020 | 07h00

Sandra Cecília Peradelles: a maternidade na quarentena... Vai passar!

Estamos mesmo entregando o sangue por essa nossa causa tão valiosa, estamos exaustas não é?

Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Ainda não batia 14h no relógio, era quarta-feira. Ou sábado. No momento de pandemia e cárcere em que vivemos é complexo discernir um dia do outro. Mas foi num desses onde o fantasma do coronavírus já assombrava o mundo e nós duas, eu e minha bebê, já nos encontrávamos em quarentena profunda. Estávamos sentadas à mesa, ela comia, como sempre, sozinha, exalando uma independência incomum para seus recém completos dois anos. Eu a observava boquiaberta, ela tão doce e astuta, com seus profundos olhos redondos e, de repente, num instante, se irritou, gritou e lançou seu prato longe, o caldo do feijão criou uma obra de arte pós-moderna na parede branca.

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Me assustei, esbravejei e ela chorou. Também tive vontade de chorar e gritar, mas lembrei que nós duas, como grande parte do mundo, estamos em agonia por viver o isolamento social, no entanto quem é a adulta sou eu, tenho que lidar. Respirei buscando uma calma que nem sei se ainda mora dentro de mim, segurei a onda, contornei a situação, conversei com ela, restabeleci a ordem.

Eu disse ordem, eu nunca diria harmonia. Mente quem diz que vive esse momento harmoniosamente. Ainda mais quando se tem que dar conta da rotina de uma criança, quase que na totalidade, sozinha, não é mesmo, mãe (solo ou casada)? A gente faz o que consegue, da melhor forma que podemos, com as condições físicas e mentais que possuímos. E, acredite, isso é quase sobre-humano, é vitória tipo Davi sobre Golias.

No dia número um da quarentena eu pensei em tudo o que poderíamos fazer nesse tempo vagaroso: rotina de alimentação, brincadeira, home office e projetos paralelos. Eu faria de tudo para manter a rotina dela como se ela ainda estivesse frequentando a escola. Estava tudo acertado se não fosse a vida, essa fada brincalhona que tem um humor ácido e adora fazer gracejos com a rotina da maternidade: chega e, num pirlimpimpim só, bagunça tudo e a gente que lute.

Os dias que seguiram foram um misto de tentativas. Sim, como eu tentei. Às vezes consegui, na maior parte deles, não. Mas eu vou fazer o quê? Minha companheira de cela demanda muito. O que é legítimo. Não pode ser fácil criar um ser humano. Não um bom, desses que acordam, olham pra estrada, levantam e andam com bravura.

Sabe o que é, mãe, tá tudo bem não dar conta de tudo. Ainda mais presa com as crias dentro de casa. Ah, e vou te contar um segredo: nenhuma mãe, em toda a história mundial, deu conta. Estamos mesmo entregando o sangue por essa nossa causa tão valiosa, estamos exaustas não é? Bom, eu estou! Mas fico feliz aqui, enquanto ela dorme, tomando uma taça de vinho e escrevendo pra você sobre nossas questões, tão íntimas e ao mesmo tempo universais. Essa pandemia vai passar. Essa fase difícil da maternidade vai passar. Tudo passa. Nós vamos ficar bem. Creia!

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