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Almanque14/03/2020 | 10h20Atualizada em 14/03/2020 | 10h48

No AstroBento, a ciência encontra eco na comunidade

Durante Simpósio da União Astrofísica Internacional foi realizada a Semana de Astronomia de Bento Gonçalves

No AstroBento, a ciência encontra eco na comunidade Daniela Radavelli/Divulgação
Durante Simpósio da União Astrofísica Internacional foi realizada a Semana de Astronomia de Bento Gonçalves Foto: Daniela Radavelli / Divulgação

Há duas formas de reagir a uma afronta. A primeira é devolver na mesma moeda. A segunda, é usar de estratégia e sabedoria. Os cientistas brasileiros que organizaram o Simpósio da União Astronômica Internacional, que ocorreu em Bento Gonçalves, resolveram responder ao confronto com altas doses de ciência e distribuir informação para a comunidade da Serra Gaúcha.

Uma das pesquisadoras que fez parte da comissão organizadora é a porto-alegrense Ana Leonor Chies Santiago Santos, física e doutora em astrofísica pela Universidade de Utrecht (Países Baixos).

– A maior parte dos cientistas brasileiros presentes no encontro faz parte de uma universidade federal, onde mais de 90% das pesquisas são realizadas. Nós temos sofrido um ataque sistemático de vários setores da sociedade. Isso tem afetado a saúde mental dos alunos, porque estão angustiados com futuro profissional.

Cristina Furlanetto, natural de Garibaldi, é professora do departamento de física da UFRGS e compôs com Ana a comissão organizadora do Simpósio.

– Sofremos ataques de várias formas, primeiro com cortes de verbas. Por exemplo, destinadas ao fomento de pesquisa e à manutenção das universidades, tem tido cortes significativos, mas isso tem ocorrido desde os governos anteriores ao Jair Bolsonaro. São cortes desde recursos para bolsas dos alunos, que é a forma como eles se sustentam, até verbas para fazer pesquisa e para manter os laboratórios. Na UFRGS,  no verão, a universidade diminuiu o tempo do expediente para economizar energia elétrica. Além disso, tem ocorrido ataques dos governantes com declarações deturpadas e fake news. Como, por exemplo, dizer que nas universidades as pessoas ficam o dia inteiro usando droga.

Para o veranense João Pedro Verardo Benedetti, aluno de Mestrado no programa de Pós-Graduação em Física, da UFRGS, o negacionismo da ciência é muito grave.

– A mais nova do coronavírus que eu vi mostra um médico que gravou um vídeo dizendo que não é o álcool gel que deve ser usado para higienizar as mãos, mas vinagre e limão (risos). Quando a gente deixa que o ceticismo da ciência se quebre, e não divulga para as pessoas os avanços científicos, essas ideologias vão penetrando na mente das pessoas. O terraplanismo é só a ponta do iceberg que vai descarrilhar em outros fatores. Agora, quando a gente traz a importância da universidade pública, e que fazemos pesquisa de alto nível no Brasil, e mostramos que os princípios da ciência estão vivos, são importantes e são de suma relevância, principalmente no período de conflito em que se vive.

Cerca de 200 pesquisadores de todo o mundo estiveram em Bento Gonçalves para discutir a evolução das galáxias no Universo, no Simpósio Internacional da União Astronômica Internacional (que congrega mais de 10 mil astrônomos e astrofísicos). As atividades ocorreram de 2 a 6 de março, no Grande Hotel DallOnder. A comissão organizadora do simpósio conta participação de docentes e pós-graduandos do Departamento de Astronômica do IF/UFRGS sendo apoiado pelo IF/UFRGS, UFSM, UFFS, FAPERGS,CNPq, SAB e Instituto Serrapilheira.Paralelamente ao Simpósio, ocorreram atividades para escolas e para o público em geral na AstroBento, a Semana de Astronomia de Bento Gonçalves.<!-- NICAID(14447029) -->
Foram realizadas 24 sessões para 1.130 estudantes da rede municipal de ensino fundamental de Bento Gonçalves. Foto: Daniela Radavelli / Divulgação

Maravilhados pelos astros
Entre as diversas ações promovidas pelo Simpósio da União Astronômica Internacional, ocorreram 24 sessões para 1.130 estudantes do ensino fundamental da rede municipal de Bento Gonçalves, que puderam participar de uma atividade em que saíram de lá maravilhados. As crianças puderam olhar para o universo dentro de um observatório inflável.

– A importância dessa atividade é que estamos aproximando as crianças do conhecimento científico e da produção do conhecimento, através de uma maneira lúdica, que encanta, que mostra, em imagens de astronomia, a formação do nosso sistema solar e faz as crianças pensarem qual é o nosso lugar no universo – explica Daniela Pavani, professora adjunta do Departamento de Astronomia do Instituto de Física da UFRGS e diretora do Planetário da UFRGS Professor José Baptista Pereira, bacharel em Física, Mestre em Física e Doutora em Ciências. 

Para Daniela, tudo o que se sabe hoje é possível porque homens e mulheres têm se dedicando ao longo do tempo a pesquisar e ampliar os seus horizontes.

– Queremos encantar as crianças e mostrar a elas como a ciência é importante e impacta a nossa vida, mesmo quando falamos de algo distante como uma estrela. Nossa intenção, ao trabalhar com as crianças, é estimular para que percebam a beleza que é o conhecimento – avalia.

CIÊNCIA QUESTIONADA:
Movimento antivacina
: esse surto de pessoas mobilizadas em não vacinar as crianças ganhou força a partir de 1998, motivado por uma publicação do pesquisador britânico Andrew Wakefield que relacionava a vacina Tríplice Viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) ao autismo. Anos de pesquisa a fio e ninguém conseguiu provar o que defendia o pesquisador. Até que, em 2010, Wakefield foi desmascarado e descobriu-se que ele havia falsificado dados de seu estudo. Wakefield teve sua licença médica cassada e o estudo foi retirado das publicações.

Terraplanismo: os defensores creem que o planeta Terra é achatado, como se fosse um disco redondo sem proporções definidas, o Polo Norte estaria no centro, e a Antártida ficaria nas bordas. No Brasil, um dos defensores mais populares é o escritor e autodenominado filósofo, Olavo de Carvalho. Em entrevista a respeito dos 50 anos da chegada do homem à lua, o ex-ministro e astronauta brasileiro Marcos Pontes, disse: “Falar em Terra plana é bobagem. Basta ver a História e a Ciência. É igual falar que água não é água. Existem muitas provas necessárias sobre a forma da Terra e de outros planetas. Isso, nos dias de hoje, não tem nem cabimento. Isso já está comprovado. Eu já vi do espaço, inclusive (risos)”.

Não há aquecimento global: o garoto-propaganda é o presidente norte-americano Donald Trump. Em 2012, ele chamou a mudança climática de farsa: “O conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses e para eles a fim de tornar a produção norte-americana não competitiva”. Depois, ponderou dizendo que estava brincando sobre a conexão chinesa, mas continuou a chamar o aquecimento global de farsa. Dados levantados por cientistas vinculados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) dizem que, se não forem tomadas ações para a preservação da atmosfera, no século 21 poderá ocorrer elevação da temperatura de 1,8 ºC a 4 ºC, em um cenário mais pessimista e que apresente maior poluição.

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