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Opinião06/03/2020 | 13h00Atualizada em 06/03/2020 | 13h00

Nivaldo Pereira: Netuno e o contágio 

Netuno associa-se a processos coletivos, que afetam toda a humanidade

Nivaldo Pereira: Netuno e o contágio  Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Sol em Peixes, o regente Netuno também. Passada a ofegante epidemia chamada Carnaval, epidemias literais nos atiram numa realidade de medo e vulnerabilidade. Nos noticiários, há muita água, entre enchentes e alagamentos. São imagens típicas de Netuno, baby! É uma queda livre do encantamento para a frustração, da máscara carnavalesca para a máscara hospitalar. Netuno associa-se a processos coletivos, que afetam toda a humanidade. Tudo o que inunda, se alastra ou contamina tem a ver com Netuno – seja uma barragem que se rompe, uma moda, um vírus real ou um viral de internet. No entanto, em vez de ceder à histeria do momento, devemos refletir se já não estamos contaminados há tempos por um vírus pouco falado: o da indiferença.

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No trânsito por seu próprio signo desde 2012, Netuno, em seu efeito de dissolução e relativização, vem fragmentando as velhas certezas e categorias. Nada mais parece sólido ou duradouro. O que era absoluto já não serve como parâmetro de futuro. No entanto, seguimos apegados a nossas molduras mentais, querendo que a complexidade da nova realidade caiba em antigos conceitos. E assim instaura-se a confusão, com cada segmento social oferecendo leituras parciais do que percebe ou deseja, elegendo seus restauradores da velha ordem. É como na historinha do grupo de cegos que vai conhecer, pelo tato, um elefante, e cada cego descreve o animal a partir da única parte em que tocou. Todos estão certos? Todos estão errados?

O surgimento da internet está relacionado diretamente a esse processo. A propósito, o universo virtual moderno das redes sociais – com tudo o que traz de maravilhoso e de horrível –, se desenvolveu na passagem de Netuno por Aquário (signo das comunicações de massa), de 1998 a 2012. A partir daí, o real se relativizou como nunca. Mais recentemente, surgiram até palavras novas, como pós-verdade e fake news. Será verdadeira essa cena na rede? Como aquela pessoa do bem pode postar coisas desse nível? Quem é mesmo ela? Como alguém pode crer nisso?

A essa altura, já calejados da dinâmica enganosa das redes, era para termos adquirido uma certa maturidade ou consciência – só que não. Pior ainda: tenebrosas transações a serviço de poderes instituídos fizeram das redes ferramentas de manipulação emocional, não somente das massas ignorantes como também dos sensatos que perderam o senso de realidade. Ah, se as horas gastas em bate-bocas na internet fossem revertidas em lutas concretas... Nesse estado de coisas, atitudes polarizadas e competitivas, forjadas no ódio, nos afastam de qualquer saída do caos. Todos perdem na luta contra diferentes moinhos virtuais.

E aí, diante de um novo vírus em ação num mundo hiperconectado, somos expostos à nossa comum vulnerabilidade humana. A ameaça de epidemia global torna inúteis fronteiras, posições políticas e saldos bancários. Estamos todos igualmente nus, somos todos iguais em espécie. Essa é a melhor lição, embora dolorosa, que Netuno em Peixes nos proporciona. Sua regência pisciana dá conta do que deve nos unir e conectar como espécie dotada de espírito, para além de classes ou ideologias.

Por isso, a compaixão é uma das mais nobres expressões netunianas. Precisamos ajustar nossas lentes distorcidas para reaprender a enxergar no outro não um mero adversário, mas um semelhante. Sem um superior respeito ao que nos torna humanos, não há futuro. Por vias tortas, quem sabe a ameaça desse vírus possa explodir as bolhas de indiferença que nos desumaniza.

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