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Opinião13/03/2020 | 07h00Atualizada em 13/03/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: o instável e o eterno

Não há mais pilares sobre os quais podemos depositar nossas certezas

Tudo parece mudar o tempo todo. Não há mais pilares sobre os quais podemos depositar nossas certezas. O mundo passou a ser volátil, efêmero. O que agora vale como verdade, amanhã pode ser substituído sem nenhuma perda de credibilidade. O que você pensa que gera na maioria das pessoas? Ansiedade. E onde elas vão se apegar? Na religião. Antes de criticar, lembremo-nos que pode ser o último bastião para aqueles que não conseguem ver sentido em quase nada. Podemos estar aproveitando a realidade imediata, mas isso se esgota diante da primeira crise. Melhor apostar em Deus do que em algo que se desmancha no ar. Ou seja, nada parece ser sólido. Essa é uma das leituras possíveis de estarmos constantemente misturando o concreto com o transcendente. O apelo a “valores” que se sustentam pela vida afora, ultrapassando a duração de, por exemplo, o último modelo de IPhone, desejo de consumo de tantos. É muito arriscado apostar hoje em dia. Ao final da tarde, poderá ser considerado obsoleto. Quando investimos no eterno, o risco de nos equivocarmos é bem menor. Claro, é um salto em terreno desconhecido, mas para muitos continuará se justificando fazer essa entrega.

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Tento ver com menos severidade essas manifestações de fé. Há muito charlatanismo, sem dúvida, mas isso parece se estender a quase todas as áreas em que o humano está presente. Qualquer tipo de culto tem um poder de catarse tremendo. Nem todos podem frequentar o consultório de um psiquiatra ou de um psicólogo. Padres e pastores acabam desempenhando esse papel. Sem contar que os ritos despertam uma sensação de pertencimento. E estar inserido numa comunidade, ser amparado diante do desânimo que assola a tantos, tem um poder terapêutico imenso. Podem estar dispostos até a pagar dez por cento de seu salário. Humano, demasiado humano. Substituir o incômodo da orfandade pela segurança não é pouco. Historicamente, podemos detectar vários momentos que servem de referência. A ruptura de uma realidade estável, geralmente através da revolução dos costumes, joga a população em uma espécie de desespero brando. E então será preciso ter apegos imediatos. Para a grande maioria, compensa a barganha, desde que o chão em que pisavam lhe seja devolvido.

Aí surgem as teorias conspiratórias e que pareciam ter sido abandonadas há séculos. Tudo para unir novamente em grupo quem está se sentindo perdido. Você começa a acreditar em terraplanismo, nos malefícios das vacinas, na concepção de que o universo foi criado em sete dias, etc. O interessante é que sempre encontrará multidões dispostas a confirmar essas pseudoverdades. Paciência. Em breve o pêndulo se inclinará para o outro lado. Evoluímos muito e esses aparentes retrocessos são pontuais. Vão-se os governos e os messias. Fica a capacidade de raciocínio. De alguns, pelo menos.

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