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Opinião18/03/2020 | 07h00Atualizada em 18/03/2020 | 07h00

Ciro Fabres: o ponto para o distanciamento

A vida precisa de encontros e exige construção coletiva de sonhos e realidades

Há uma dicotomia que se verifica e que perpassa a sociedade que é central para os nossos melhores encaminhamentos e possibilidades: a proximidade versus o distanciamento. Aparentemente sem maior importância, essa dicotomia está presente nas preferências pessoais, mas também nas escolhas e decisões administrativas, e determina consequências culturais e políticas profundas. Aqui em Caxias, especialmente, a sensação que se tem é de que há um conjunto de esforços, culturais, administrativos e comportamentais para conduzir as pessoas para suas casas, e que lá fiquem, para afastar incômodos. É um grande engano, pois, se evoluir assim, a cidade ganha em degradação e insegurança.

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Então, estabelece-se uma queda de braço invisível, uma disputa por conquista de espaço entre essas possibilidades antagônicas. Se não vejamos: tirar desfiles ou Feira do Livro da Praça Dante ou da Sinimbu, ponto para o distanciamento. Trazer os eventos de volta a esses cenários, ponto para a aproximação. Abandono e descaso com as praças, ponto para o distanciamento. Investimento em parques, áreas de lazer, pracinhas, ponto para a aproximação. Cortar árvores, com ambientes menos acolhedores, ponto para o distanciamento. Incentivar programações culturais e o Carnaval, ponto para a aproximação, oferecer mais espaço ao trânsito de veículos e mais velocidade nas ruas, ponto para o distanciamento. Oferecer atrativos e mais cuidado ao centro da cidade, ponto para a aproximação. Mudanças tecnológicas centrais também entram nesse jogo, em cheio. Redes sociais, ponto para o distanciamento físico, que é decisivo. Ritmo mais frenético de trabalho, ponto para o distanciamento.

Nesse estica-e-puxa cotidiano para ganhar espaço, a cultura do distanciamento encontra-se em pleno curso, e está vencendo o jogo. Nos filmes futuristas ou de projeções quanto ao alcance tecnológico sobre cidades, as pessoas que circulam apressadas em metrópoles frias simplesmente ignoram as outras. A convivência não faz  sentido. Este mundo é mais triste e sem graça.

Pois ainda por cima, não bastassem a velocidade e as redes sociais, a cultura do distanciamento ganha neste momento um importante reforço: o coronavírus, com as exigências de medidas preventivas ao contágio. O coronavírus vem fortalecer essa cultura pelo distanciamento compulsório – aliás, uma precaução decisiva, deve-se reconhecer. Há menos circulação de pessoas, menos atividades comunitárias e coletivas. O distanciamento ganha força. O temor, além das consequências à saúde de todos nós, é que a cultura do distanciamento, no retorno às atividades normais, esteja ainda mais fortalecida.

A vida precisa de encontros e exige construção coletiva de sonhos e realidades. Esta é sua essência, graça e sentido. Façamos pausa momentânea aos encontros e convivências. Mas voltemos com força, logo ali. Que não se perca esse rumo e essa esperança.

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