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Opinião11/03/2020 | 07h00Atualizada em 11/03/2020 | 07h00

Ciro Fabres: casa das máquinas

Somos quase irresponsáveis com nossa memória cultural

Há ocorrências e acontecimentos que têm o poder de destampar a tampa de nossa memória, sobre a qual tratamos de manter vigilância, pois, uma vez arrancada essa tampa, um manancial de reminiscências vem à tona. Como um vulcão. Foi o que aconteceu agora com a morte em Caxias do Sul, na sexta-feira, do baixista Cargê, da banda de rock Casa das Máquinas, que fez estrondoso sucesso nos Anos 70.

O maior sucesso dessa banda de curta trajetória foi a música Vou Morar no Ar. Com uma batida inconfundível, ela reproduzia efeitos sonoros diferenciados para os padrões da época, singelos para os recursos da tecnologia de que dispomos hoje: som dos passos de uma pessoa caminhando, efeitos climáticos e supersônicos, uma letra de poucos versos, mas que arremessavam a reflexão para a amplitude das possibilidades e dos horizontes. O que é um mérito indiscutível diante de cenários, musicais ou não, que nos são propostos, cada vez mais restritos e menos espaçosos.

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Vou Morar no Ar varreu o país. Para evitar exageros, pode-se dizer que marcou época, em um momento histórico amordaçado e grave. Mas, sem apelar para a alienação e a ingenuidade, a música da Casa das Máquinas projetava outras amplitudes, avançava sobre comportamentos, característica do universo do rock, indo além daquela temática dramática, contra a qual era necessário reagir. Vou Morar no Ar varreu o país como hoje varrem o funk e a sofrência. São os tempos. Provavelmente não haverá contemporâneos daqueles conturbados anos da primeira metade dos Anos 70 que não lembrem de Vou Morar no Ar. Pois agora somos pegos desprevenidos pela morte do baixista Cargê, da formação original da banda, aqui pertinho de nós. E a tampa de nossas reminiscências é arrancada subitamente.

A arte tem esse poder. E a música talvez seja a expressão artística que mais arrebata a memória afetiva e histórica. Descuidados que somos, atropelados pelas atribulações e tarefas do cotidiano, que fazem nossa “casa das máquinas” trabalhar exaustivamente, que nos levam o tempo e a energia e nos entregam em troca o cansaço, deixamos ficar soterrada em diversos cômodos, gavetas e porões de nossas casas a nossa memória afetiva, muitas vezes expressa em músicas que não ouvimos há décadas. Somos quase irresponsáveis com nossa memória cultural. Abençoadamente, às vezes certas músicas nos pegam de surpresa, entregando-nos uma lufada do ar mais fresco, que resgata a existência.

“Eu quero voar o mais alto que eu puder”, nos relembra Casa das Máquinas. Assim, voltamos por momentos, aos Anos 70, aos personagens da época, aos propósitos que nos guiavam então. E notamos que muita coisa se perdeu no caminho.

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