Adriana Antunes: os velhos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião31/03/2020 | 07h00Atualizada em 31/03/2020 | 07h00

Adriana Antunes: os velhos

Acredito que a vida nos toca de um modo diferente, por mais doloroso que isso possa ser

Tenho ouvido pelos grupos de whats e redes sociais sobre o fato de que a covid-19 é perigosa somente para os velhos e me atrevo a iniciar a reflexão deste brevíssimo texto sobre o conteúdo desta afirmação. As experiências da vida, da dor, da morte, do caos, da angústia ajudam a quebrar, a rachar a nossa máscara. De repente, em meio a uma situação tão distópica como essa, começamos a mostrar quem realmente somos. Momentos como esse deveriam marcar nossa capacidade de ir ao fundo e perceber que nem sempre ir adiante é a melhor solução, como se nada estivesse acontecendo. Está. Claro que assusta e nesse balaio jogamos todos os nossos medos e egoísmos. Discursamos pela economia, pela política, pelo social como forma de nos apegar a um mastro ainda visível de um barco que afunda a cada dia mais. Mas não queremos morrer afogados e no desespero pouco importa que outros padeçam. Revelamos a nossa face mais distorcida e aterrorizante. Somos feios por dentro. Somos repulsivos. De nada adiantou tanto marketing, tanta publicidade, tanta plástica, em algum momento o subterrâneo no qual vivemos rompe as barreiras e nos alcança aqui fora.

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Até aqui nos demos o luxo da ideia de tempo para se poder realizar uma transformação íntima. Parece que este tempo se encerra logo ali. Parece que apenas desejar ser um ser humano melhor não basta. Parece que este não é mais um momento de construção de mundo, mas de alentar o que temos. Parece que deveríamos nos empenhar em descobrir o que de fato é essencial e vivê-lo. Daqui a pouco, a partir dos cuidados necessários, a vida voltará mais ou menos como antes. Ter esperança é sonhar com este momento, mas que vida se quer para depois? Me acalenta pensar que Deus, o mundo, a vida, nos envia professores especiais para que nos ensinem o que realmente é viver. Por isso, esse é um tempo de reflexão e esse simples gesto de recolhimento ajuda a minimizar o que há entre nós e a dor. Permite com que nossas mágoas antigas, medos, raivas se aproximem e abram de uma vez por todas as portas que insistimos em deixar fechadas, mas que carregamos as chaves junto ao corpo, num roçar constante de que temos muitas coisas mal resolvidas e embora estejam ali, presentes o tempo todo, fingimos que não. Parar para pensar nas possíveis perdas, nas angústias e aflições que a doença pode trazer é descobrir que precisamos largar tudo aquilo que não é importante. Quando as nossas certezas e convicções caem por terra, abrimos espaço para ver a vida de uma forma completamente nova, mas para isso é preciso humildade e coragem.

Acredito que a vida nos toca de um modo diferente, por mais doloroso que isso possa ser. Basta afrouxar um pouco os elos que nos mantém firmes em coisas que começam a ruir. Precisamos ser gentis, sim, com a erosão de perdas que se seguirão e nos esvaziar o suficiente para só então, recomeçarmos outra vez, e de preferência com os nossos queridos velhos por perto.

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