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Opinião21/02/2020 | 13h00Atualizada em 21/02/2020 | 13h00

Nivaldo Pereira: peixes na avenida

Ser Peixes é ser Carnaval porque é imperativo borrar o real

Nivaldo Pereira: peixes na avenida Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

No Sol de Peixes, eu quero saber: me diga, peixinho, quem é você? Ora, ora, como dizer o que só sendo Peixes para entender? Como definir o que só sei sentir? Sou um e sou nenhum. Sou o que quiser, sou meu, sou seu, estou para o que vier. Afinal, sou plural. Sou beltrano, sou sicrano, sou o fulano de tal. Pescou não? Desista, então. Eu sou o que escapa de qualquer explicação. Sou o que tem corpo e peso, mas teima em sair do chão, na turba do bloco, no fervo da multidão. Eu sou o Carnaval em cada esquina do seu coração.

Carnaval é espelho pisciano, mano! Sacou como é? É aquela vibração doida desde a sola do pé. E o pé é a parte Peixes na gente, a que nunca mente o que sente. O pé segue o tom do som. Bate o tambor, se alastra o ziriguidum, e o corpo todo responde ao sedutor baticum. A alma vai atrás, besta que não é, e já não importa se a vida é dura: no enleio da música, a realidade é que parece loucura. A alma, enfim liberta, renega o que lhe aperta, e gira, e pira, no êxtase de desaguar – e assim vira o próprio mar, onde tudo principia e aonde tudo vai dar.

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Ser Peixes é ser Carnaval porque é imperativo borrar o real. Quando limites se dissolvem, conflitos se resolvem. No doce torpor do esquecimento, a vida vira um presente momento, sem futuro nem passado. A vida vira um fruto maduro, pronto a ser degustado. Ah, vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval! Torta ou direita, toda expressão soa perfeita, ao menos uma vez, no embaçar da embriaguez. Sob o mais difuso lume, cada peixinho reflete todo o cardume, e a multidão pulsa em cada coração.

Carnaval é uma pisciana anestesia, é uma profana poesia que atenua nosso tormento. Carnaval é o caos que permite um novo movimento. Em sua confusão consentida, o Carnaval renova a vida. É quando pode aflorar a seiva antes reprimida. Bom ou ruim? Eis o desafio de identificar em cada intenção o seu fim, e respeitar o outro, ante o grito que decreta: libera, galera!

E na quentura da avenida, opostos a postos, brota a diversão da inversão. Que mal pode haver em Maria brincar de João? Como condenar a alegria de João fingir ser Maria? Cada fantasia apenas mascara uma outra possível cara. De Batman ou Coringa, na cerveja ou na pinga, é tudo uma questão de ginga. É tudo uma dança, sem cobrança. De mais a mais, é só o direito à alegria fugaz na ala dos barões famintos ou no bloco dos napoleões retintos. É a passagem literal do estandarte do sanatório geral.

Pois, então, é também isso o humano, em seu quinhão pisciano: esse anseio de delirar, essa coisa de fugir, esse devaneio ao sonhar, esse dom de iludir – esse ser que mais é quando está fora de si. Paradoxo de Peixes, sabe? Coisa que no cotidiano não cabe, mas que a imaginação compensa. Ah, a vida é tão menos densa quando a alma voa solta, livre e desenvolta...

Por isso, nem tente, amigo, viver sem alguma loucura. Aí é que mora o perigo: nessa insana fissura de querer tudo controlar, sem ter que pagar ao deus Baco seu tributo. É achar-se mestre absoluto quando se é mero aluno. Sobre esse é que pesará a fúria do deus Netuno. Ser Peixes é aceitar a necessária entrega – o melhor remédio contra a arrogância cega.

Na lei de Peixes, que seja o Carnaval a celebração do “cada um na sua”, em casa ou na rua, saindo fora ou curtindo o agora. Cada um com seu critério, que possa dar conta do próprio mistério. Afinal, para o bem ou para o mal, amanhã tudo volta ao normal. Por hoje, resta dizer: já é Carnaval, cidade, acorda pra ver!

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