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Opinião14/02/2020 | 16h50Atualizada em 14/02/2020 | 16h50

Nivaldo Pereira: o perigo dos livros

Sob o Sol de Aquário, precisamos também pensar num futuro que faça jus a um ideal de humanidade

Nivaldo Pereira: o perigo dos livros Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

“Faminto, pega no livro: é uma arma”. O verso é do poema Louvor do Aprender, do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Em 1933, por ideias como essa, Brecht teve que sair do seu país. Naquele mesmo ano, os nazistas queimaram em praças públicas pilhas e pilhas de livros considerados inconvenientes ao regime. A recente notícia da tentativa de censura a livros pelo governo de Rondônia soou como uma fogueira simbólica a serviço do obscurantismo. Outra vez, humanos em retrocesso. Como contraponto, devemos evocar a visão de futuro de Aquário. Como a de Brecht, um engajado aquariano que fez de sua arte instrumento de liberdade e justiça social.

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No pesado clima astrológico atual, que repete configurações relacionadas a conservadorismo e repressão, todo cuidado é pouco para evitar a repetição de males e horrores passados. Afinal, como o próprio Brecht já tinha avisado, “a cadela do fascismo está sempre no cio”. Sob o Sol de Aquário, precisamos também pensar num futuro que faça jus a um ideal de humanidade. E que futuro teremos se o acesso ao conhecimento e ao pensamento crítico forem cerceados? Absolutamente aquariano, Brecht sentenciou: “Nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar”.

A repercussão da tentativa de censura a livros nas escolas de Rondônia fez o governo recuar, mas o caso reafirmou o antigo conflito entre a educação e o poder. De um lado, a força luminosa contida nos livros e seu potencial de ampliação de consciências; de outro, a força dos que tramam, nas sombras, pelo rebaixamento do humano aos próprios níveis de estupidez. E esse absurdo veio à tona sob o Sol de Aquário, signo da mente atenta e lúcida! A perplexidade foi geral: como isso é possível num país que se diz democrático, em pleno século XXI? Outra vez Brecht: “Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?”.

Ah, a luz dos livros! Devo tudo a eles. Foram as armas com as quais pude lutar para criar meu caminho no mundo. Posso traçar meu processo de desenvolvimento, da infância até aqui, somente a partir dos livros que li – e sei de tantos outros que ainda preciso ler, certo do quanto ainda tenho a aprender e a crescer como humano. Pela minha própria experiência, considero óbvia e imprescindível toda política de acesso livre aos livros. E sempre vou me apavorar com pensamentos em contrário. Sou da turma do poeta Castro Alves: “Oh! Bendito o que semeia / Livros... livros à mão cheia... / E manda o povo pensar!”.

Tive a sorte de nascer na mesma cidadezinha baiana do poeta, Cabaceiras do Paraguaçu, e no legado dele constatei a força de um poema, de um livro. Em férias recentes na Bahia, casou de eu revisitar tanto a casa em que nasceu Castro Alves, no interior, quanto a última morada dele, no centro de Salvador. Numa noite, pertinho desta última, entre as mesas de um bar na rua, um jovem negro fez um recital poético. Foram versos contundentes, plenos de realidade e denúncia, como no rap e no hip-hop. Pensei na hora em Castro Alves. Não tanto no perfil libertário e abolicionista do poeta, mas no futuro que ele vislumbrou.

Já não é preciso um branco bem nascido gritar o horror da escravidão. Os negros estão aí, donos da própria voz, conscientes de uma nova abolição. Castro Alves era pisciano, mas tinha a Lua em Aquário, além do regente deste, Urano, conjunto a Mercúrio e Vênus. Era um humanista visionário. Ah, o negro do recital tinha um livro nas mãos! Estava armado de cidadania.

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