Gilmar Marcílio: mulheres humilhadas - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião14/02/2020 | 07h00Atualizada em 14/02/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: mulheres humilhadas

Este é um tema que sempre me tocou, causando em mim um impacto emocional profundo

Para entender com clareza cristalina a situação que muitas mulheres (muitas, mesmo!) enfrentam quando são assediadas sexualmente, sugere-se ver o filme Escândalo, do diretor Jay Roach. Este é um tema que sempre me tocou, causando em mim um impacto emocional profundo. Nós, homens, dificilmente avaliamos o grau de humilhação e constrangimento a que elas são submetidas. Podemos até nos sensibilizar, ser solidários, tentando nos colocar no lugar da vítima. Mas não dá para ignorar que há quem concorde com essas investidas. Felizmente, de uns anos para cá, a conscientização desse grave problema aumentou e é praticamente impossível para alguém que vive neste planeta não ter ouvido algum relato do gênero. Essa obra que mencionei é emblemática. Mostra o que o domínio gerado por um alto cargo ou pela abundância de dinheiro faz numa mente que se compraz em obter favores de toda ordem, notadamente os sexuais. Tudo será barganhado: começam exigindo uma carícia, evoluem para um toque mais ousado e por aí vai. Para alcançar isso, vale qualquer expediente. O resultado, produto do medo e da intimidação, costuma render bons frutos.

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É alentador saber que a arte serve para lançar luz sobre algo que, nas sombras, já era do conhecimento de tantos. O problema é que esses poderosos costumam calar todos ao seu redor. Geralmente, fazendo chantagem com quem se predispõe a tornar esses fatos públicos. Quando você ouve as queixas que perpassam a alma dessas criaturas vilipendiadas, sente uma profunda compaixão por elas e uma descomunal raiva pelos facínoras - que assim mesmo devem ser tratados. Nada justifica tal barbárie. E, no entanto, ela viceja como inço em campo aberto. Mulheres talentosas viram reféns de uma conjuntura em que a dor e a impotência são as marcas maiores. Acabam ficando amedrontadas e silenciam. Sabem que a violência, de ordem física ou emocional, recrudesce quando os agressores se surpreendem acuados. É patético ver os argumentos dos poucos que até agora foram para o banco dos réus: explicam os atos usando como defesa a sua masculinidade e as exigências que dela decorrem. “Sabe como é, foi impossível manter o controle.” Sem contar que apelam para o velho clichê: quem mandou provocar? Então um cara que anda pela rua sem camisa seria passível de estupro? Vivemos em uma sociedade de viés machista, mas já não dá mais para endossar comportamentos assim, baseados nesse princípio. Evolução também significa conter os instintos mais primitivos.

Admire a beleza, é um exercício estético e filosófico. Mas pare por aí. Junte-se a qualquer movimento que denuncia esses horrores que ocorrem cotidianamente, praticados por quem eventualmente está bem próximo. O inimigo talvez use disfarces bem sutis. Aprenda desde cedo a reconhecê-los.

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