Gilmar Marcílio: eu e o Instagram - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/02/2020 | 07h00Atualizada em 28/02/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: eu e o Instagram

Pois é. Estou devidamente inserido no mundo virtual. Se a adesão equivalesse a uma batalha, eu certamente estaria entre os últimos a capitular. Mas nem tudo são dissabores, reconheço. Tenho apreciado participar do Instagram, por exemplo. É um mundo em si. E, como a quase totalidade do que nos cerca, exige afinar o olho e a sensibilidade para escolher o que vale a pena ser visto. Dialogo com amigos que admiro e respeito e recebo conteúdo de museus, galerias, revistas, jornais e artistas que gosto. Acompanho de perto a história da beleza e lampejos sobre o que de melhor se produz hoje. Resisto a colocar “coraçãozinho” em quem posta um prato de comida. Acho plausível a pessoa se promover, se exibir até. Mas sem exageros. Que o prosaico permaneça no prosaico, nada de lançar luz sobre ele. Há tanto para se partilhar, que é uma real perda de tempo passar horas deslizando o dedo pela tela. Tem muita boniteza lá fora para a gente se encantar. Música, natureza e arquitetura. Arte, ética e poética. Um grande caldeirão que, afinal, define nossa humanidade.

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Só tem uma coisa que me incomoda. Desconheço se isso acontece com vocês também. Percebi, ao longo desses meses de adesão, que me concentro menos do que antes. Inconscientemente é como se eu desejasse que a realidade do dia-a-dia tivesse a dinamicidade que as redes nos oferecem. Que ela fosse editada. Acabamos nos acostumando a ler frases avulsas, uma cena quase instantânea, vídeos que recortam momentos incríveis. Só que não é assim. Aliás, se a gente desvia a atenção e busca sair da roda viva, ela pode ser bastante repetitiva. E aí está uma diferença fundamental: lá, na tela brilhante, tudo parece perfeitamente enquadrado, a iluminação é sempre boa e, ora, se eu me desinteressei, basta ir para o próximo candidato a mostrar como o seu dia foi maravilhoso. Nunca me intimidei em ler um livro de setecentas, oitocentas páginas. Para meu espanto, comecei a questionar qual o valor de uma empreitada dessa envergadura. Sim, sim, o culpado está diante de mim, perfeitamente identificável. Mas ele é sedutor e tenho pouca vontade de excluí-lo. Até porque, se fizer isso, voltarão a olhar para mim com imerecido estranhamento. Cansei. Estou bem dessa maneira.

Não sei como agir frente a um universo que se alimenta de tanta volatilidade. Postagens que duram 24 horas. Vídeos de um ou dois minutos. E milhares, milhões que também brigam por seu cantinho ao sol. Por enquanto, detectei alguns sintomas que me causam desconforto. Quero manter o organismo saudável, sem precisar ser visto como aquele que não se adaptou. Tenho ficado cada vez mais no jardim para ser impregnado pelo fluxo natural da existência. Desfilam ao meu lado o instante e o eterno. Passei a escolher os dois.

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