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Opinião13/02/2020 | 14h25Atualizada em 13/02/2020 | 14h25

André Costantin: vertigem

O título Brasil em Vertigem também deixaria o foco mais ajustado ao nosso protótipo nacional: pura vertigem, desde a névoa do descobrimento

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Democracia em vertigem, documentário brasileiro que está no Oscar (e na Netflix), poderia se intitular Brasil em vertigem. Esta é a sugestão que eu daria ao filme. Não mudaria muito. Mas deixaria a obra da diretora Petra Costa mais colada à crônica política que a narrativa propõe – e, de fato, é.

Acho interessante que uma crônica cinematográfica chegue lá, pelo olhar de uma jovem realizadora. Petra faz um recorte particular e íntimo de um tempo e seus fatos – propondo uma colagem autoral da transposição (ou naufrágio) da esquerda delirante ao pântano dos antigos ressentimentos da extrema-direita do Brasil. Tudo imerso no caldo da nossa pororoca social da última década.

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Ao chegar à outra margem do rio, em tresloucada travessia, a nação deu de cara e braços abertos com mais um Messias da pátria, carranca do atraso, espécie e mistura improvável de dois personagens da nossa (e outras) histórias: o beato Antonio Conselheiro (Os Sertões, de Euclides da Cunha, 1902) e o palhaço Bozo (Bozo at the circus, EUA-1946 / Brasil-1980). Essa imaginação, claro, não pertence ao filme.

O título Brasil em Vertigem também deixaria o foco mais ajustado ao nosso protótipo nacional: pura vertigem, desde a névoa do descobrimento. Até porque o conceito de “democracia” é muito vago. Essa ilusão de “povo no poder”, ainda na escola, sempre me pareceu uma utopia pescada nos mares da Grécia clássica para nos contentar e domesticar durante os intervalos comerciais de cada novo ciclo do poder.

É que desde a adolescência, eu, aluno exemplar do extinto Colégio Santo Antônio (“entra santo, sai demônio”), frequentava também a Escola Secreta da Anarquia, ouvindo coisas como “Eu já passei por todas as religiões, filosofias, políticas e lutas; aos onze anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta”. Era As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor, rodando a todo volume no toca discos Gradiente Sistem 95.

Nossa democracia é recitativa. É um mantra invocado a cada corrida eleitoral, jogada em mesa de truco nos bastidores, nas sacristias, nos porões dos smartfones – e depois apenas confirmada pelo teatro democrático, mais ou menos como o Oscar. Esse seria o passo além no mosaico de Democracia em Vertigem. Mas não se trata de uma narrativa raulseixista.

Pouco importa: atenta, lamuriosa, parcial, branca, mulher, corajosa – deixem Petra falar. Para o mundo todo ouvir e assistir. Ou vocês preferiam ver o véio da Havan na foto com o Brad Pitt? O Bial filmando um épico sobre o protetor solar?

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