Nicolau Amoretti: um porto-alegrense na Colônia Caxias - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Memória #103/01/2020 | 18h15Atualizada em 05/01/2020 | 15h42

Nicolau Amoretti: um porto-alegrense na Colônia Caxias

Em artigo, historiador Roberto Nascimento abordou a trajetória pioneira do filho de imigrantes italianos que chegou a Caxias no final do século 19

Nicolau Amoretti: um porto-alegrense na Colônia Caxias Acervo de família / divulgação/divulgação
Imagem de Nicolau Amoretti durante uma caçada é praticamente a única existente na família Foto: Acervo de família / divulgação / divulgação

Paralelamente às pesquisas e ao livro da neta Ivanizi Amoretti Sartori, a trajetória de Nicolau Amoretti também foi abordada pelo historiador Roberto Nascimento, casado com Virgínia Amoretti — filha de Arnaldo, neta de Antônio e bisneta de Nicolau.

Nascimento é autor do artigo abaixo, apresentado na Unisinos em 2010. Foi durante o seminário Migrações: Mobilidade Social e Espacial, integrante do XIX Simpósio de Imigração e Colonização. Já a foto que ilustra esta publicação é provavelmente a única de Nicolau, feita durante uma caçada, nos primórdios do século 20.   

Nicolau Luiz Amoretti nasceu em Porto Alegre, em 1852, e morreu em Caxias, em 1908. Tem-se aqui um caso de imigrante diferente, e não o típico que é instalado nas colônias do Nordeste do Rio Grande do Sul. A especificidade está por conta de sua nacionalidade brasileira e sua descendência italiana, num processo histórico em que brasileiros e italianos tinham papéis bem definidos, que dificilmente se misturavam. É sabido e muito marcado que a condição dos italianos que foram instalados no Rio Grande do Sul não foi a mesma dos italianos que foram dirigidos para São Paulo. 

Enquanto os imigrantes italianos foram trabalhadores rurais e urbanos, em sua maioria, no estado paulista, os outros se tornaram proprietários rurais, na serra do estado rio-grandense. É, grosso modo, a imigração paulista e a colonização gaúcha. Também marcada é a diferença entre a imigração de italianos ocorrida em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, e a colonização das terras devolutas do estado, que se localizavam ao Norte de Porto Alegre, para além da área já ocupada pelos imigrantes alemães.

Em 1875, quando começou a chegar a grande imigração de italianos no estado, uma presença italiana já tinha importância em Porto Alegre, bem como em outras cidades do interior. Esses italianos não vieram para serem agricultores, não se enquadravam no perfil do imigrante que adere ao processo imigratório por impossibilidade de continuar em seu país de origem. Em 1875 eles já estavam estabelecidos na Capital exercendo atividades urbanas, no comércio e no que hoje se chama de "serviços".

Durante o período da "grande imigração", outros italianos começaram a chegar a Porto Alegre, caracterizando um processo distinto do "colonial". Esses italianos vieram do Sul da Itália, e não pela mão do Estado, mas pela mão de parentes e amigos. Tanto antes como depois de 1875, os italianos e seus descendentes são, na Capital do Estado, homens e mulheres urbanos, com atividades pequeno-burguesas e que se ajudam mutuamente. Entre esses italianos estava João Batista Amoretti, proprietário de uma padaria na Rua Riachuelo. Um de seus filhos foi Nicolau, que aos 24 anos de idade emigrou de Porto Alegre para a recém criada Colônia Caxias.

A Capital já era uma cidade razoável nesse período. Hospital, café, escola, jornal, teatro, bonde, entre outros, eram equipamentos e produtos urbanos que nela se encontrava, além do poder instalado, com palácio, polícia, tribunal. Quem nela vivia com condições sócio-econômicas suficientes, poderia desfrutar desse "mundo" oferecido por Porto Alegre. Amoretti saiu dessa cidade para morar na sede da Colônia Caxias, que foi instalada ao lado de um sítio indígena denominado Campo dos Bugres. 

A Colônia começou a ser medida em 1875, e a região onde posteriormente foi instalada sua sede só foi alcançada em 1876. O espaço da sede começou a ser ocupado pelos funcionários da Diretoria da colônia e por alguns colonos, já com uma certa ordem. Porém, o plano urbanístico que orientou seu posterior crescimento e que ainda hoje é a região central da cidade de Caxias do Sul só foi ser definitivo a partir de 6 de dezembro de 1878, quando pelas mãos do diretor da ocasião, Luiz Manoel de Azevedo, funcionário do Tesouro do Estado em Porto Alegre, foi organizada a planta que à outra substituíra. 

A sede da Colônia Caxias foi projetada conforme o costume e a legislação imperial que tratava da colonização. Para além disso, como concepção teórica, ela é um acúmulo do tempo, pois traçada em tabuleiro de xadrez, forma utilizada historicamente em muitos empreendimentos coloniais, por diferentes Estados e povos, em quase todas as épocas e continentes. A medição de sua área foi levada a cabo pelo agrimensor Virgílio de Souza Conceição, natural de Santa Catarina. A futura cidade então começava a organizar seu espaço urbano, ainda sem hospital, sem escola, sem café, sem teatro.

A ocupação dos lotes urbanos da sede foi acontecendo de oeste para leste, o que transformou o limite oeste, que era próximo da clareira dos indígenas e da estrada Rio Branco, no "centro" do incipiente povoado. Nesse quadrante estava instalada a Diretoria da colônia, depois foi instalada uma escola, os funcionários do Estado ali residiam. Foi nesse local que Nicolau adquiriu dois lotes urbanos, e no qual em 1884, data do recenseamento da colônia para sua transferência ao município de São Sebastião, ele morava com sua mulher Maria, de 20 anos, e seus filhos João, de 5, Luiz, de 4, e Sebastião, de 3. Depois desses, o casal teve mais 16 filhos nascidos e crescidos, além de cinco gestações interrompidas. Ele era reconhecido como negociante e também era concessionário do lote C da Segunda Légua. Posteriormente, foi concessionário de um grande lote dentro do logradouro público reservado no perímetro destinado à sede. Não há registro de que tenha alguma vez utilizado as duas propriedades para alguma atividade, agrícola ou não.

Amoretti participou da vida do novo povoado com atividades tipicamente urbanas, e este deve ter sido o propósito de sua mudança para a colônia. Foi o primeiro agente do correio, foi fiscal da Diretoria e da Comissão de Terras, foi coletor federal e foi comerciante. Nesta condição fez muitos negócios com o poder público. Em 17 de junho de 1881, ele recebeu 85$920 por conta de compras feitas pela diretoria na sua casa de comércio. Por despesas da mesma diretoria entre maio e junho do mesmo ano foram mais 51$500. E em janeiro de 1882, foram 273$000. 

Sua casa também funcionou como albergue, restaurante e salão de bilhar – José Clemente Pozenato ambienta cenas de seu livro "A Cocagna" na casa de Amoretti. Ela era freqüentada pelos funcionários da Diretoria e também por imigrantes. Também consta que empreitou a construção de 21.512 metros da parte final da estrada Rio Branco, que foi concluída em 1888. Essa parte final foi contratada entre o Estado e três particulares: Nicolau Amoretti, Henri Bonnett e Germano Parolini.

Envolveu-se discretamente na vida política de Caxias – foi indicado, juntamente com muitos outros cidadãos, pelo intendente Campos Júnior para prestar esclarecimentos à polícia, em rumoroso episódio de suposto atentado contra ele, e que teve como pano de fundo a luta entre católicos e maçons pelo poder municipal. Antes disso, em 1893, teve sua casa queimada pelos federalistas, quando a vila de Caxias foi por eles invadida. Nicolau já tinha recolhido a família e descido a Serra até São Sebastião do Caí, por lá permanecendo muito tempo, até a reconstrução da residência. Em São Sebastião abriu uma padaria, fazendo o mesmo em Caxias, após o retorno. Filho de padeiro em Porto Alegre, tornou-se padeiro em Caxias. Amoretti contribuiu, conforme sua condição de homem nascido e criado em uma capital de província, com a lenta transformação da Sede Dante em uma área urbanizada.

Por algum motivo desconhecido, Nicolau Luiz Amoretti não recebeu a tradicional homenagem que recebem os primeiros moradores, em quase todos os lugares de ocupação nova: em Caxias do Sul não há sequer uma rua com seu nome. Em 1959, a Câmara Municipal da cidade denominou 239 novas ruas, com nomes escolhidos entre os "velhos construtores de Caxias do Sul". Os nomes foram escolhidos pelo legislativo por indicações de João Spadari Adami. Estão lá os contemporâneos de Amoretti, parte significativa com vidas discretas como a sua; ele não está. 

O processo imigratório, e a instalação colonial no Nordeste do Rio Grande do Sul, movimentou brasileiros, que já eram ou aqui se tornaram funcionários do Império ou da República, tornando-se, também, imigrantes. Moraram nas sedes coloniais, por muito ou por pouco tempo, pessoas vindas de muitas partes do país, e que contribuíram para sua urbanização. Assim como Amoretti, exerceram funções de escriturários, auxiliares, ajudantes, fiscais, recenseadores. Os que aqui fixaram residência se envolveram na vida cultural da cidade, fundando jornais, clubes, associações literárias. Lavra Pinto, Abreu e Lima, Ribeiro Mendes foram alguns sobrenomes desses que para a colônia rumaram, acompanhando o fluxo dos italianos que chegavam. Tal qual Nicolau Amoretti.

Foto: Acervo de família / divulgação

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