Marcos Kirst: o príncipe e o menino - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião20/01/2020 | 07h00

Marcos Kirst: o príncipe e o menino

Buscar a felicidade é uma prerrogativa lícita e um direito universal, válida inclusive para príncipes e atrizes hollywoodianas, eu, você e a madama

Enfrentando com um sorriso as expressões de espanto exclamadas em todas as línguas do planeta, o príncipe Harry não pestanejou, dias atrás, ao decidir chutar o balde, digo, a coroa da realeza britânica e largar de mão sua participação no elenco capitaneado por sua avó, a rainha Elizabeth II, para ir reinventar a vida de forma plebeia ao lado da esposa, a atriz norte-americana Meghan Markle, no Canadá. Harry e Meghan manifestaram o desejo de viver uma vida normal, ganhando seu próprio sustento, desvencilhados do aparato advindo da ostentação (e dos impostos) da coroa britânica, claro que entendendo-se por “normal” aquilo que se pode antever de uma dupla que passa a enfrentar seus novos desafios já confortavelmente ancorada em fortunas que nossas vãs filosofias e finanças sequer sonham.

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Mas vá lá: o (ex?) príncipe Harry surpreende pela ousadia de quebrar uma tradição, enfrentar as adversidades e a repercussão internacional de seu ato e mergulhar no sonho de ir em busca da felicidade pessoal. Tudo fica mais fácil, repito, quando se tem uma conta bancária capaz de ancorar qualquer loucura, mas pelo jeito a questão não era só essa. Buscar a felicidade é uma prerrogativa lícita e um direito universal, válida inclusive para príncipes e atrizes hollywoodianas, eu, você e a madama. Que sejam felizes, então, longe da rainha e sua coroa encravada.

Comungava com Harry o desejo de buscar uma vida melhor também o menino africano Laurent Barthélémy Ani Guibahi, de 14 anos, que na semana passada decidiu concretizar o desejo de abandonar seu país natal, a Costa do Marfim, e reconstruir a vida na França, país que em seu imaginário de garoto estudioso e bom filho, representava o paraíso na Terra, sabedor que era da discrepância na qualidade de vida entre as duas nações. Determinado, pôs seu plano em ação na primeira semana deste ano: fez a pé os 30 quilômetros que separam sua casa do aeroporto de Abidjan e embarcou como clandestino em um Boeing da Air France, escondendo-se perigosamente no trem de pouso. Laurent foi encontrado após a aterrissagem, no Aeroporto Charles de Gaulle, na França, porém, chegou morto ao destino de seu sonho. Os mundos internos de Harry e Laurent convergiam no anseio genuinamente humano que pauta a busca pelos sonhos. Porém, seus mundos concretos divergiam nas condições de que dispunham para viabilizar esses sonhos. A busca da felicidade tem seu preço, cabe a cada um pesar a relação entre custos e riscos. Para o pequeno africano, custou a vida. Para Harry, pouco mais que sustentar o olhar torto da rainha.

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