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Opinião02/01/2020 | 07h00Atualizada em 02/01/2020 | 07h00

André Costantin: sofás da Jacob

 Houve períodos recentes de nem um mísero Couch na Jacob, por meses

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Você vem pela Matteo Gianella e chega na rótula da Casa da Pedra. Ali você entra em uma roleta: se tiver sorte, vaza no sinal verde e segue dirigindo e meditando com os seus botões. Mas em geral fica preso na sinaleira. Daí nem adianta disfarçar, ficar puto. Inicia-se a negociação do dia com a prestimosa equipe de rapazes que atua na área, com seus bastõezinhos de rodo, bisnagas de gosma e mil argumentos para limpar seu para-brisa e turvar humor.

Então, solenemente atendido, inclusive com aquele aperto de mão, carente ou sacana, você cliente do atraso tangencia à esquerda e entra no grande panorama demonstrativo da economia do Brasil: a rua Jacob Luchesi. Eis um laboratório do PIB à céu aberto, atrelado a outros indicadores do nível mental da nação, que expressam dados simbólicos mais relevantes e confiáveis que as previsões dos economistas ou os dados oficiais de governos mentirosos. Basta observar.

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As bolsas de valores de SP ou NY batem recordes ou afundam cada vez que o mundo vira de lado na cama, mas a verdade está na Jacob Luchesi – onde até pouco tempo funcionava a sede deste jornal Pioneiro. O índice mais explícito da Jacob ronda os containeres do lixo e poderia chamar-se algo assim: “Couch Square” ou “Couch Coin-BR”. Em traduções possíveis, seria o índice do sofá por quadra: este objeto do desejo das nádegas sedentárias que chega às casas brasileiras e provoca o descarte do sofá velho nas calçadas jacobianas.

Um sofá velho por quadra é PIB de 4 a 5%, certo! Houve períodos recentes de nem um mísero Couch na Jacob, por meses. Nos padrões desse fim de ano, um sofá e meio a cada três quarteirões parece indicar que o povo está se achando com os din-din – além da arminha – na mão, acreditando na cantilena de um ministro da economia que por ironia provinciana lembra o nome de uma antiga clínica psiquiátrica da cidade, motivo de esdrúxulo e ultrapassado anedotário local.

Mas pelo estado das peças expostas e do conjunto dos descartes de entorno dos sofás, há indícios de que uma nova bolha econômica está no ar. Porque o interessante deste índice Couch é que ele atrela uma ampla gama de tendências macroeconômicas e comportamentais das famílias: com o sofá velho vão-se televisores, cozinhas, sapatos, ventiladores, mobílias nupciais, roupas, fotografias – tudo despejado no eclético passeio público da Jacob.

Até um conjunto de venezianas de madeira boa, em perfeito estado, que eu juntei na Jacob e carreguei para Monte Bérico, na antevéspera do Natal.

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