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Opinião30/01/2020 | 07h00Atualizada em 30/01/2020 | 07h00

André Costantin: monomania

O Brasil vai se tornando monotemático, dos estádios às ruas

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Era como naquele velho clichê de um filme de ficção: eu dormia um sono longo e profundo, fora do mundo. Na ilusão de me proteger do trágico emburrecimento do Brasil e de boa parte do planeta, infestados que foram pela peste dos novos fascistas, feios, tolos e midiáticos, eu resolvi me drogar. O silêncio é uma substância pesada. Me tranquei em mim, na minha casa.

Encerrei a minha existência agônica no Facebook, sempre ignorei Twitter e Instagram, nunca mais liguei a tevê em noticiário – que já era um cadáver embalsamado no ângulo da sala. Só às vezes algum jogo de futebol ou um desenho animado para Aurora iluminam as teias de aranha trançadas na superfície da tela plana.

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Um dos últimos fios que me conectava ao espectro da realidade era o rádio do carro. Mas, na devassa existencial de 2019 eu girei botões que só tocariam música, quando isso fosse possível, sem mais vozes de locutores, comentaristas e outros profetas das sempre as mesmas coisas. Restou o celular com um ou dois sites de jornais, que eu vou zapeando com critério para não azedar o meu retiro aos fundos do campanário de Monte Bérico.

Até que... esta semana, no carro, levei o dedo indicador à tecla de uma rádio da capital. E então acordei do meu estado de coma. Só que o mundo não tinha mudado (porcamiséria!); estava tudo ainda no lugar de antes, no mesmo lodo fecal, na igual entonação, na mesma monomania. Falava-se da musiquinha do Neymar, do tique nervoso do craque colorado, da cueca de crochê azul-celeste que a tia-avó do técnico prometeu fazer se o seu pupilo for campeão, e por aí afora.

Desperto em alto-mar. Aciono o limpador do pára-brisa na chuva de verão. A água no vidro me lança ao convés do Piquod, o barco baleeiro da saga de Moby Dick, clássico de Melville (1851). Os jogadores de futebol ali são marinheiros; estão todos escutando, com terror e fascínio, o discurso sanguíneo do capitão Ahab, em sua inescapável monomania: perseguir pelos mares do mundo o lendário cachalote branco que lhe arrancou uma perna, rumo ao fim.

A monomania suicida de Ahab – aliás, pertinente analogia aos capitães de hoje – é uma ideia única, um eixo absoluto, uma cosmovisão estreita e redutora do universo. É o que se tornou a cultura do futebol brasileiro, que ao lado do samba representava nossa diversidade cultural. O povo e a mídia pouco sabem ou falam de esportes; rezam só futebol, no que ele tem de mais bobo e superficial. O Brasil vai se tornando monotemático, dos estádios às ruas.

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