André Costantin: BR-101 - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião16/01/2020 | 07h00

André Costantin: BR-101

Viajamos para acalmar a alma e voltamos sempre ao mesmo lugar nenhum

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

É noite. A BR-101 é uma via láctea de caminhões e estrelas. Eu sou um homem. Eu sou o menino a bordo da Enterprise nas tardes de tevê no sofá da sala de uma casa de madeira qualquer de uma rua do Kaiser. A mente transpassa o para-brisa e viaja além dos faróis do carro. Lá onde Vênus toca o asfalto. Um dia não haverá mais automóveis, estradas. Viajamos para acalmar a alma e voltamos sempre ao mesmo lugar nenhum. O ponteiro da gasolina devolve o agora, como se Ela – a realidade – ainda fizesse questão de mim. No posto, enquanto o frentista que eu nunca mais verei na vida me dá boa noite e se põe a encher o tanque, eu vou até a conveniência ver algo para comer. A porta automática de vidro abre ao movimento do meu corpo que um dia não mais se moverá. E descortina um altar: entre prateleiras de chocolates, biscoitos e refrigerantes, entre redemoinhos de objetos fúteis de plástico sem os quais não vivemos, entre tudo e tanto está uma Bíblia sobre um pedestal, aberta no Antigo Testamento. Eclesiastes: “Tudo é ilusão; vaidade das vaidades”. Diz um artigo que em 2032 o Brasil será então um país de maioria evangélica. Os vampiros palacianos sacaram o ar do tempo e muito antes abriram seus livros sagrados diante das câmeras, nos parlamentos, nos motéis e até em igrejas. “Que proveito tira o homem de todo trabalho com que se afadiga debaixo do sol?”. Karol Wojtyla se ajoelhava e beijava o nosso chão. Terra Brasilis. Ainda não é mas já é carnaval. Deus e o Diabo da terra da Skol. E dos analfabetos, dos rebanhos e dos pobres de espírito que precisam de pastores e papagaios para lhes ruminar as escrituras. “O sol se levanta, o sol se põe; o vento vai ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos”. O Vaticano queria outro Papa pop. Bispo Edir dá as cartas aqui ou em Buenos Aires. O malvado Dr. Doofenshmirtz quer dominar os Três Estados. O Palácio do Planalto emoldura seu Messias roto e estúpido. “Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles”. Em 2032 minhas filhas viverão aqui? Esquecerão de mim, como tem de ser? Meu pai morreu aos 51. Cortaram os velhos ciprestes no cemitério, onde brotavam cogumelos. Guardei folhas de carvalho dentro de um livro. O hippie da praia aceita cartão de crédito. Preciso avisar à editora que este texto não tem parágrafo. “O que foi é o que será; o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol”. É noite na BR-101. 

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