Adriana Antunes: para atravessar a vida - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/01/2020 | 07h00Atualizada em 28/01/2020 | 07h00

Adriana Antunes: para atravessar a vida

Só precisamos de muita coisa quando a vida é vazia

Para atravessar a vida é preciso antes de tudo ter coragem de enfrentar o espelho, saber plantar flores em espaços pequenos, conseguir ler versos em meio ao cotidiano turbulento e saber, pelo menos, fazer um arroz gostoso. Não é preciso de muita coisa para se viver feliz. No caso do arroz é preciso de gás, panela e um pouco de alho. Sobre as flores, uma varanda e um dedinho de sol. Sobre as poesias, um livro de bolso é a solução e com relação ao espelho, saber que a vida passa e que envelhecemos.Talvez, se possível for, ter também um amor para poder compartilhar as horas, as alegrias e os tédios. Se você não tem ninguém, pode sonhar com um, preparar-se para quando ele chegar, sem muita expectativa ou restrições. Lembre que o amor não tem idade, raça ou sexo. E, não adianta ter muito dinheiro e não saber apreciar a beleza de um jasmim. Gente cheia de si não tem espaço para o outro. Só precisamos de muita coisa quando a vida é vazia. Daí temos de preencher nossos dias, trabalhando de modo exagerado, querendo viver uma paixão atrás da outra, postando fotos nas redes sociais o tempo todo.

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É preciso ter paciência para não ser esmagado pelos problemas, pelas ansiedades, pela falta de perspectiva, pelo medo, pela falta de ter alguém para conversar. E como dizia Caio Fernando Abreu é preciso também ter fé para atravessar os dias, na certeza de que daqui a pouco já é fevereiro, pois precisamos seguir em frente. Para atravessar a vida precisamos reaprender a dormir no jardim em meio às plantas, sem medo das formigas ou aranhas ou micuins. É preciso estar distraído para sermos surpreendidos pelo inesperado.

É preciso saber fazer chá de folha de laranjeira para si, quando estiver resfriado e para o outro, quando podemos demonstrar que somos humanos e desejamos amar e ser amados. É preciso vivenciar o luto e as perdas, deixando nossos mortos queridos seguirem seu destino. Sempre lembro de minha nona que morreu há um ano e nove meses, hoje com menos dor e mais saudade, mas procuro lembrar dela sorrindo, me pedindo para aumenta o volume da música e me tirando para dançar em meio a cozinha. Então fecho meus olhos e danço. Depois, deixo ela ir embora.

Para atravessar os dias é preciso saber mudar de assunto, afinal, a última palavra não precisa ser a nossa. É preciso saber que não sabemos de tudo e que bom, pois assim damos espaço para o outro nos ensinar.

Para atravessar os dias é preciso saber beijar na boca, conseguir identificar o gosto do gengibre, olhar para o céu em busca da lua, e principalmente, saber que amanhã será continuação do hoje, mas quiçá, estaremos um pouco menos ruins.

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