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Opinião 20/12/2019 | 14h58Atualizada em 20/12/2019 | 14h58

Pedro Guerra: então é Natal? 

Então, Papai Noel, se você estiver lendo essa minha cartinha, vê se você tem a felicidade pra você me dar

Pedro Guerra: então é Natal?  Antonio Giacomin/
Foto: Antonio Giacomin

Passando pelas ruas algumas noites atrás, a cidade estava escura. Poucas eram as casas que tinham se preocupado em pendurar um jogo de luzes de Natal que pode ser comprado a partir de R$ 9,90 em algumas lojas do Centro. Talvez seja o consumo de energia, já que agora nem horário de verão nós temos. Desde já me desculpem pela indelicadeza e pelo tom do texto a seguir, mas será que o Natal sobrevive por mais muito tempo?

A resposta para essa pergunta pareceu um pouco mais positivista quando, dentro do carro naquela mesma noite, vi algumas luzes piscando em um prédio no final da quadra que eu estava. Porém, chegando mais perto eu percebi que era só a luz da portaria que devia estar com defeito mesmo. Nada de pisca-pisca de LED decorando a recepção. Na mesma hora, um pouco desmotivado, lembrei de quando era criança e as luzes de Natal cortavam a rua principal da cidade, de extremo a extremo. Eu achava aquilo tudo lindo, e para os meus olhos miúdos, a representatividade daquela decoração era imensa. Era como se eu vivesse dentro de um daqueles filmes cafonas da Sessão da Tarde (mas que a gente ama).

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E por falar em infância, a minha ansiedade se explica desde então. Ainda era outubro quando eu já pedia para os meus pais desenterrarem a tralha natalina da garagem para que eu pudesse decorar a sala. Aquela era a minha época favorita, sério. Eu passava uma tarde toda enfeitando a casa e no final os meus pais ainda tinham que sorrir e fingir que tudo não estava parecendo mais um Carnaval do que Natal mesmo (valeu, gente). Além da árvore – que naquela época era maior do que eu –, tinha festão pendendo da cortina, o meu trem de brinquedo dando voltas e voltas no chão, as dezenove figuras do Papai Noel & Sua Trupe espalhadas por todos os cantos e, é claro, um copo de leite e alguns biscoitos. Sim, era outubro, e se o Papai Noel não aparecesse para entregar os presentes, provavelmente seria por ter tomado o leite azedo que eu ofereci (sabe como é, quando a gente é criança a gente costuma acreditar que tudo dura para sempre).

Dói pensar que muito disso mudou. Os parentes sumiram da ceia de Natal, os presentes nunca mais chegaram debaixo da árvore (até porque, depois de alguns anos nós ficamos com preguiça de montar tudo – afinal, é dezembro e todo mundo está cansado, né?) e não deu para me esforçar em reviver a magia que sempre existia nessa época porque até as luzes espalhadas pela cidade não existem mais.

Os tempos são outros, as prioridades também. Talvez esse nem devesse ser o texto mais recomendado para ganhar o título de “último do ano”, mas é que eu gosto das coisas sinceras. E é triste admitir que a gente já não vê mais graça naquilo que um dia nos fez tão felizes. Quem sabe a culpa seja totalmente minha, quem sabe seja do mundo capitalista, globalizado, conectado só se for via wi-fi e, exatamente agora, escuro em que vivemos. Realmente, como diz a música: anoiteceu. Então, Papai Noel, se você estiver lendo essa minha cartinha, vê se você tem a felicidade pra você me dar.

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