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Opinião20/12/2019 | 14h50Atualizada em 20/12/2019 | 14h55

Nivaldo Pereira: natal de astronauta

Centenas de voltas dadas, e nada parece se repetir ao nosso olhar

Nivaldo Pereira: natal de astronauta Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Houston, não temos nenhum problema. Aqui na Estação Espacial, tudo segue como planejado. Orbitamos numa altitude de 400 quilômetros, circundando a Terra a cada hora e meia. Como é emocionante acompanhar a dança de nosso planeta ao redor do Sol! Já neste domingo, o hemisfério sul terá o dia mais longo do ano, dando início ao verão. Na poética celeste da astrologia, começará o signo de Capricórnio. E em poucos dias haverá o Natal. Agora mesmo, a Terra dói de tão linda! Houston, desculpe a fuga do relatório técnico, mas esse silêncio, essas cores, essa visão do alto botam a gente comovido como o diabo.

Centenas de voltas dadas, e nada parece se repetir ao nosso olhar. Há sempre reflexos inusitados da radiação solar no prisma da atmosfera, compondo auroras em verde e vermelho. Há camadas diferentes de nuvens e correntes variadas sobre os vastos oceanos. É um planeta vivo e pulsante, belíssimo em sua diversidade, mas, vendo daqui, nada podemos saber de seus habitantes. A Terra insinua-se apenas como uma grande casa, redonda e acolhedora, escondendo sob seus véus esses bilhões de seres que um dia desenvolveram o cérebro e dominaram as demais criaturas.

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Aliás, há uma pista marcante da ação dos terráqueos. Nas horas noturnas, a eletricidade das grandes metrópoles desenham a desigualdade da ocupação do globo. Cidades do norte são como fogueiras alastradas, enquanto vagas luzes brilham na África. Colares acesos delimitam os litorais, em oposição ao breu dos desertos, geleiras, montanhas e florestas. Mas, afora isso, daqui do alto nada pode diferenciar e dividir essa massa que habita as áreas firmes do planeta. Não se avistam etnias nem culturas. Não há pistas de religiões nem de ideologias. Não há como conceber posses nem misérias. Será assim que os deuses nos percebem?

Houston, perdão pelo ataque de metafísica, mas é comum esse tipo de arroubo a quem desafia a gravidade e se lança ao espaço. Também pode ser efeito do Natal próximo, a gente se põe mais reflexivo, mais sensível. A propósito, talvez as cidades estejam ainda mais faiscantes com as luzes extras da temporada. Como não queremos ficar de fora, aqui já decidimos: vamos tocar por horas o Oratório de Natal de Bach, enquanto a estação for percorrendo suas 15 voltas diárias em torno do nosso lar planetário. A arte imortal será a celebração nossa do melhor do engenho humano.

Esse maravilhoso engenho nos trouxe até aqui, ao alto céu, e certamente nos levará mais adiante, mas também produz tanta segregação, tanto conflito, tanto sofrimento... Nesse Natal espacial, na contínua epifania de ver a Terra toda por inteiro, estaremos vibrando por um olhar mais amplo de cada ser pensante, para além de seus muros, em direção ao que nos une como humanos. Ah, se todo mundo pudesse ver o que vemos agora, não as partes, os desejos, as vaidades, mas o todo, o coletivo, a deslumbrante casa comum! Por isso a arte sempre nos eleva, por emergir do espírito – a nossa porção que voa.

Houston, aqui está um astronauta arrebatado pela beleza do cosmo, tocado pela solidão sábia dos astros, querendo descer e gritar que o que nos separa é ilusório. Acima de nossa órbita, milhares de satélites facilitam a comunicação humana, conectando mundos em acelerada euforia. O que fazer com tanta informação, tanto ruído? O silêncio, Houston: precisamos de mais silêncio! E de abraço, afeto, cuidado. Avisa aí que precisamos merecer a Terra!

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