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Opinião13/12/2019 | 13h00Atualizada em 13/12/2019 | 13h00

Nivaldo Pereira: em busca do sentido

Dentro de nós, a flecha sagitariana do sentido maior de tudo também anda tonta: para onde nos conduzirá a insanidade desses tempos?

Nivaldo Pereira: em busca do sentido Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

No alto da cumeeira do mundo, como na antecipação de uma furiosa tempestade, o galo dos ventos anda biruta: sua flecha oscila loucamente ao sabor de correntes variáveis. Dentro de nós, a flecha sagitariana do sentido maior de tudo também anda tonta: para onde nos conduzirá a insanidade desses tempos? Sob o céu de Sagitário, signo das questões existenciais, queremos saber: qual o sentido de testemunhar a falência dos mais elevados valores humanos? Como aceitar que na era mais tecnológica e esclarecida da história possa haver coros em louvor ao que, sem pudores, nos oprime e barbariza? Por que temos – nós, os contrários a toda forma de barbárie – que passar por isso?

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Entre bombardeios de informações falsas, agressivos apelos consumistas e muito cansaço, uns entregam os pontos e clamam por um meteoro. Outros resistem na defesa de sonhos que aos poucos se revelam esgarçados e anacrônicos. Outros mais adotam a atitude cínica de quem não se importa. E há uma massa imensa – na qual me incluo – que tenta encontrar significado no enfrentamento dessa dura travessia. Por que diabos estou vivo nesse período doido em que a humanidade perdeu o senso do humano? Carma, castigo? O que isso tudo tem a ver comigo?

Sagitário é o convite para buscar sentido mesmo nas piores provações, já que perdê-lo pode ser muito perigoso – a alma adoece, o corpo também. Na condição de quem suportou a crueza extrema dos campos de concentração nazistas e pôde observar as reações dos outros prisioneiros a tal golpe do destino, o psicólogo judeu Viktor Frankl afirmou que “a busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida”. Portanto, é vital encontrar razões para viver mesmo no breu da desesperança.

Na visão de Frankl, esse sentido pode brotar ao fazer concretamente um trabalho que nos realize. Também da relação com a natureza e a cultura e do foco no amor como forma máxima de captar o outro. Além disso, devemos mudar nossa própria visão diante do sofrimento inevitável: se não dá para frear uma onda coletiva, nos cabe descobrir como isso pode ampliar nossa consciência, gerando uma nova narrativa.

Retomemos a questão: por que estamos vivos nesses tempos de demolição do que valorizamos? Tempos atrás, chegou-me às mãos um interessante texto atribuído à psicanalista Clarissa Pinkola Estés, autora do livro Mulheres que Correm com os Lobos. O título já impacta: “Somos feitos para esses tempos”. A autora compara as almas despertas de hoje – e há tantas, tantas! – a fortes embarcações feitas para lidar com águas turbulentas. Em algum nível profundo, as almas lúcidas devem se perceber cumprindo um propósito de acender a luz para outras almas em conflito. O desafio dos lúcidos é não dar de comer ao desespero e manter-se no foco amoroso das ações possíveis de serem realizadas, ainda que pequenas.

Conforta refletir que, se estamos vivendo um caos coletivo, é porque temos algo importante para entregar: nossa luz, nossa compreensão, nosso amor. Cada ser consciente, em seu ofício ou sua arte, tem algo a contribuir. O sagitariano Erico Verissimo escreveu: “O menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ela caia a escuridão,propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada a despeito da náusea e do horror”.

E você? Cadê sua lâmpada?

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