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Opinião27/12/2019 | 07h00Atualizada em 27/12/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: alegria

Além das discussões literárias e políticas que tanto os irmanou, o que está presente é um exercício de fraternidade, de acolhimento

Você pode esperar a entrada do Ano Novo de diversas maneiras. A mais convencional é fazendo um grande número de promessas. Se elas irão se cumprir ou não, pouco importa. Vale a renovação de intenções, promovendo no seu interior uma perspectiva de mudança ou de supressão do que o incomoda. Somos movidos por esses movimentos pendulares: quando o cansaço nos alcança, precisamos de uma pausa para restaurar o estoque de esperança. E os ritos se prestam muito bem a esse papel. Mas será possível, também, encontrar os que veem nessa data simplesmente um avanço no calendário, algo a ser alcançado e suplantado sem alarde. São decisões estritamente pessoais e obedecem a uma ordem que só tem a ver com os aspectos emocionais.

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Quanto a mim, raramente costumo me organizar especialmente nesta efeméride. Encaro-a com simpatia, uma folga que me permitirá ter largas horas de leitura, bons filmes, encontrando amigos. Gosto da ideia de sentar à mesa e dividir alimento com quem tenho afinidade. Compor uma família que não é necessariamente biológica, mas que comporta a possibilidade de bons momentos, de partilhas que ultrapassam a obrigatoriedade de se unir em nome da consanguinidade. Por esses dias, andei lendo alguns trechos de cartas trocadas entre os escritores Jorge Amado e José Saramago. Além das discussões literárias e políticas que tanto os irmanou, o que está presente é um exercício de fraternidade, de acolhimento. A páginas tantas pode-se ler esta belíssima frase. Diz o brasileiro a seu colega de ofício português: “Venha logo, vou encher a casa de alegria para te receber.” Tentarei fazer isso quando as pessoas chegarem na noite do dia trinta e um. Colherei flores do jardim e tudo ficará perfumado. Pela manhã, abrirei portas e janelas e deixarei o sol entrar. O ouro de sua luz haverá de impregnar as paredes e os objetos que lá estão. Colocarei a melhor louça, mostrando que o belo é, acima de tudo, uma paisagem espiritual. Usarei roupas claras, como se eu ainda estivesse impregnado pela suavidade da manhã. Virarei contra a parede os relógios, pois quero lhes dar a sensação de que, com a sua presença, tudo ganha outra dimensão.

Aqui e ali, deixarei espalhados livros de poesia. Assim poderemos nos impregnar dessa límpida e pura linguagem. Os fogos espocarão ao longe e serão apenas um eco distante nessa área de silêncio que costuma ser o lugar que me abriga. Ficarei feliz em saber que outros comemorarão de forma tão diferente da minha. Mas lembrarei que a dor continuará tendo o seu espaço no mundo. Tristemente, para tantos e tantos, ela não fará uma pausa a fim de que consigam se recuperar do seu peso. Pensando nisso, terei gratidão por essa ilha de serenidade em que agora me encontro. E desejarei que ela me habite, se possível, pelas semanas e meses seguintes. Será, com humildade, meu jeito de rezar.

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