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Religião23/12/2019 | 08h00Atualizada em 23/12/2019 | 08h00

Em "O Martírio da Santa Feia", bento-gonçalvense Clóvis Da Rolt aborda a saga de uma imagem rejeitada

Livro aborda diferentes aspectos da polêmica que resultou na troca da imagem de Nossa Senhora de Caravaggio instalada na RSC-453, em Farroupilha

Em "O Martírio da Santa Feia", bento-gonçalvense Clóvis Da Rolt aborda a saga de uma imagem rejeitada Nereu de Almeida/Agencia RBS
Imagem original, substituída em 2015 Foto: Nereu de Almeida / Agencia RBS

Durante quase uma década, o poeta e pesquisador bento-gonçalvense Clóvis Da Rolt acompanhou as polêmicas envolvendo a imagem de Nossa Senhora do Caravaggio instalada em 2008 em um canteiro na RSC-453, em Farroupilha. Obra de Ronaldo Chiaradia, a estátua, que ficou conhecida como a "Santa Feia", foi substituída por uma nova imagem em dezembro de 2015, após uma "vaquinha" feita por devotos que arrecadou R$ 80 mil. Com olhar atento ao inusitado de poeta e rigor científico de doutor em Ciências Sociais, o professor da Unipampa buscou entender as razões para tamanha rejeição e a consequente repercussão que gerou na remoção da imagem original. A pesquisa resultou no recém-lançado livro O Martírio da Santa Feia, que pode ser comprado pela internet e em breve estará em livrarias da Serra. 

— Desde que essa controvérsia se instaurou eu tinha um insight de que não era um caso apenas de extravagância ou excentricidade. Era preciso entender porque uma imagem religiosa era rejeitada pelos seus próprios fiéis. Minha abordagem partiu do âmbito estético, uma vez que a feiura do rosto sempre foi abordada, mas também envolve a materialidade religiosa, a devoção e a cultura da região. A agressão à imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, me parecia, seria uma agressão também ao imaginário construído ao longo de muito tempo, que referende a imagem heroica e brava do imigrante italiano na região. Como se a imagem renegada fosse uma vergonha para um certo status pujante da região. Não era apenas a aparência da imagem. Havia algo mais profundo a ser compreendido — destaca Da Rolt. 

Além da explanação teórica e de entrevistas com o reitor do Santuário de Caravaggio, padre Gilnei Fronza, e com o autor da segunda versão da imagem, o escultor Gilmar Pocai, o livro traz uma ampla análise da cobertura da mídia sobre o tema, principalmente nas páginas do Pioneiro (que abordou o tema em quase 50 matérias, com mais força a partir de 2014), e da repercussão junto aos leitores nas redes sociais. O autor identificou três tipos preponderantes, entre quase 700 comentários na internet.

Foto:

— Localizei primeiramente um conjunto de comentários estéticos, que tratavam, especificamente da questão da feiura da imagem. Em segundo, outro que abordava o viés religioso, consistindo basicamente em grupos protestantes agredindo grupos católicos pelo culto de imagens, contrário ao que diz a bíblia. E, por último, a abordagem jocosa, que brincava com toda a situação. Isso mostra que as pessoas receberam a questão de formas muito diversas, de acordo com o seu universo de referências — comenta o autor. 

Ao longo dos anos, a imagem esculpida por Chiaradia foi apelidada de "noiva do Shrek" ou 'biscoito Trakinas", entre outras referências pejorativas. Da Rolt, contudo, frisa que seu livro não emite juízo de valor sobre a imagem ser adequada ou inadequada, nem feia ou bonita. 

— Em geral, qualquer monumento agrada e desagrada à população, gera controvérsias. Mas grande parte da rejeição à imagem se deu pelo fato dela estar num espaço público, em que todas as pessoas podem e se sentem à vontade para emitir um juízo de valor sobre o objeto. Isso potencializou a agressão sofrida pela imagem. Mas o que mais me motivou nesse trabalho foi entender as causas da rejeição, analisando o contexto em que se deu esse processo. 

Serviço
O quê: livro O Martírio da Santa Feia (editora CRV), de Clóvis Da Rolt
Como comprar: à venda pelo site www.editoracrv.com.br (em breve o livro estará também nas livrarias da região)
Quanto: R$ 53,80 (impresso), R$ 43, 96 (digital)


 
 
 

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