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Opinião05/12/2019 | 07h00Atualizada em 05/12/2019 | 07h00

André Costantin: tragédias estéticas

O Brasil vive uma tragédia estética, prenunciativa dos desastres ambientais, culturais, econômicos, urbanísticos e por aí vai

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O Brasil vive uma tragédia estética, prenunciativa dos desastres ambientais, culturais, econômicos, urbanísticos e por aí vai. Evito porém me referir ao nosso naufrágio moral – que a pregação dos bons costumes no mais das vezes serve para nos tornar ainda mais bárbaros, imbecis e... cordiais brasileiros.

Vejam o fenômeno dos crentes. Em duas ou três décadas, a onda evangélica – com todos os seus repuxos e correntes – virou um tsunami social e político. Das prefeituras, dirigidas por pastores ou por ex-coroinhas e ex-seminaristas (sim, nós, os católicos), ao Palácio do Planalto, ocupado por milícias do baixo clero, a Bíblia passou a ser exibida com prazer ao lado do revólver 38. Eis que a verdade divina, de tão burilada, vira mentira; Jesus, invocado à exaustão, convida o Diabo à mesa do bar – que nem Ele aguenta.

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Do ponto de vista estético, tudo já estava anunciado nas calçadas, para além das escrituras: aquelas saias e aqueles cabelos lambidos das mulheres, os ternos pretos engomados dos pregadores derretendo no sol, a angústia do pecado, a gritaria na porta dos templos de mil nomes: tudo aquilo ia dar nesse magma fecal da realidade brasileira.

Na ascensão do nazismo, vestíbulo da Segunda Guerra, o Terceiro Reich anunciava queimas públicas de livros e obras de arte modernas – portanto, “degeneradas”. Artista juvenil reprimido, Hitler depois guiou a boiada germânica na direção da arte clássica, limpa, ariana (enquanto oficiais nazistas traficavam possíveis Picassos e afins por debaixo dos panos).

Aqui e agora, o nosso diminuto Führer anacrônico e tropical, sem talento algum a ser reprimido, cercado de dementes, reedita no quintal do mundo sua caça particular à arte depravada, ao fiscal do Ibama, ao beijo gay etc.

As tragédias já se anunciavam em nossa patética fotogenia política, mas também nos prédios de Caxias, no batidão monotemático dos carros, nos muros do condomínio, no português cada vez mais tacanho falado e escrito em lousas digitais – parece haver hoje até um orgulho besta de escrever mal. E como se deixaram levar aquelas centenas de jovens almas asfixiadas em uma casa noturna, diante de um show gaudério-tosco-pop, entre fogos de artifício no palco? Não seriam vítimas também de uma nossa tragédia estética?

Um jato cruza o céu da cidade. Dizem que é o avião presidencial. No banheiro, uma mosca me enche o saco. Ela se exibe em manobras cada vez mais abusadas, mas vai bater e se enredar no canto do vidro da janela, na teia de uma aranha marrom.

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