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Opinião16/12/2019 | 15h46Atualizada em 16/12/2019 | 15h46

André Costantin: Senhores, o Chapéu!

Sugiro um Museu do Chapéu, para reapresentar aos homens esse antigo e moderno objeto mediador entre nós e o astro-rei

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Senhoras e Senhores, eis o chapéu! O Chapéu é uma peça destinada a cobrir e proteger a cabeça, um item universal do vestuário masculino e feminino – mas este texto destina-se aos homens, que têm menos cabelos que as mulheres, e para não correr o risco de ser outra manifesta opinião machista. O chapéu pode ser de vários materiais, das palhas naturais de todos os cantos do mundo aos tecidos tecnológicos com proteção UV; tem uma copa geralmente enformada e possui abas, largas ou estreitas.

Esta descrição é tola e desnecessária. Mas é importante para que as pessoas notem que a humanidade há milênios desenvolveu esse importante utensílio. No início dos séculos, o chapéu deve ter servido à sobrevivência da espécie humana, ainda nômade, evoluindo depois para as funções estéticas e de marcação identitária.

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Seria de supor que nesta região ao sul da América do sol, século XXI, atingida em cheio pela falha na camada de ozônio, o chapéu devesse ser um item óbvio e de saúde pública para os homens. Entretanto, basta entrar o sol rachando no verão e vemos um desfile de risíveis improvisações: uns desvestem a pança e usam a camisa na cabeça, muitos caminham e se esbarram pelas sombras das marquises do centro, outro vai com a pasta do xerox protegendo a testa calva.

Nas zonas coloniais da região, ocorreu a tragédia estética do boné. Tempos atrás o chapéu reinava absoluto na cabeça e no coração das gentes do interior, sobretudo o clássico chapéu feito de dressa – a trança da palha de trigo: bonito, dourado e durável, anatômico, herdeiro de sabedorias e habilidades ancestrais, eficiente no sol na chuva; útil até para amenizar pancadas na cabeça, como já provei com meu surrado chapéu trançado por um artesão de Pinto Bandeira.

Mas aí chegou a funesta onda dos bonés, com suas estampas de propaganda de veneno ou supermercados, deixando as orelhas e o pescoço dos agricultores expostos de sol a sol. A silhueta típica e altiva dos nossos colonos virou um pobre desfile de cabeças maltrapilhas e publicitárias. Tal pobreza migrou, aliás, para os mendigos urbanos, que nunca mais passaram o chapéu para recolher moedas – e o boné, como se sabe, é molengo demais para isso.

Sugiro um Museu do Chapéu, para reapresentar aos homens esse antigo e moderno objeto mediador entre nós e o astro-rei. O problema é a extrema simplificação das cabeças do nosso tempo, incluindo uma parte delas que passou a duvidar que a Terra é redonda e que gira em torno do Sol.

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