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Opinião04/12/2019 | 11h00Atualizada em 04/12/2019 | 11h00

André Costantin: o idiota

Eis que... o idiota sou eu!

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O grande idiota não é exatamente o protótipo humano evocado pela figura de um sinistro político alçado a mito das catacumbas de Brasília e das redes sociais, com sorriso idiota, gestos galináceos, orador disléxico, desprovido de melhor eixo dramático ou mental, amarrado às (in)continências do passado e às vibrações das fases oral ou anal – no mais a la minuta do cardápio freudiano.

Não. O Idiota de Dostoievski é outro. É o idiota quixotesco. Para melhor entendê-lo – e amá-lo –, convém travar alguma intimidade com outro personagem universal: Dom Quixote, de Cervantes. E como tenho eu, nesse sentido, usado erroneamente – que vergonha! – a palavra idiota.

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Percebo isso à noite, na cama, lambendo as páginas do romance de Fiódor Dostoievski, de 1869. Então, resgato na memória o comentário de um velho amigo, perdido no tempo. Era um clérigo graduado, de raro acervo intelectual, e vendo certa vez em mim os ideais de um promissor ser humano de cabelos loiros e olhos vivos, disse-me em conversa trivial que um dia eu deveria ler O Idiota.

Bem trinta e poucos anos se passaram para que eu, bom idiota, deixasse aquele leve ressentimento juvenil para então me encontrar com parte do meu espelho, mastigando o clássico russo com os olhos – tendo recebido o livro de aniversário, das mãos de pessoa arguta.

Assim, nas últimas semanas estou diante do jovem príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin, o herói literário acometido por uma suave porém insistente idiotia de espírito que se confunde com doença; ingenuidade e inocência tão profundas que desabam na estupidez e até na epilepsia. “Míchkin” – que nos meandros do idioma de Dostoievski vai jogar com a palavra “mychka” (ratinho), “com o propósito de acentuar a exagerada modéstia e pacatez do protagonista” – observa o tradutor da recente edição portuguesa, José Geraldo Vieira.

Passo pela página 409 – das 708 que compõem o livro – e quase nada de extraordinário acontece no horizonte do príncipe Míchkin: uma vida linear, sem grandes aventuras, ciente porém incapaz de se sobrepor à própria apatia; diletante, sempre a olhar a existência com olhos de quem nunca a viu antes – resultando disso um filósofo original. E no entanto a singular epopeia do idiota segue em frente, a história pela história. Em torno de Míchkin gravitam personangens, diálogos e situações, imantados pela sua doce idiotia.

Eis que... o idiota sou eu! Quanto ao tipo de homem descrito no primeiro parágrafo desta crônica, busco outra palavra. O Imbecil – talvez.

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