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Opinião26/12/2019 | 09h28Atualizada em 26/12/2019 | 09h50

André Costantin: adoração dos Reis

 O que ele mais gosta de pintar na rua são "los gatitos"

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Ele caminha no acostamento da BR-376, Curitiba a Ponta Grossa, do Oriente para o interior do Paraná. Vai, vê, viaja – “viajeia”. Nunca pega carona. Não é pardal, desses que ficam pelas praças das cidades, sob as marquises. É um trechero. Dias e anos são trechos da estrada. O vento das jamantas infla suas roupas, arrasta no ar a mala de mão, feita daquele corvim marrom imitando couro, fivelas cromadas. Nunca soube de abraço de mãe. Acabaram as pilhas, por isso vai no trecho sem música na caixinha de som. Foi criado em um abrigo, pelos 16 anos ganhou as estradas reais. Desde então caminha e vai, 15 ou 70 quilômetros por dia, não importa quanto. Só vai. Segue as estrelas. Quase negro de quarenta e três anos de sol. O chamarei de Gaspar.

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Entra na toca de entulhos na calçada da Buarque de Macedo, para os lados do São Geraldo. Tira de lá um São Jorge pintado no verso de um banner publicitário. O que ele mais gosta de pintar na rua são “los gatitos”. Havia gatos na tenda anterior, sob um viaduto da rodoviária de Porto Alegre. Melchior fala portunhol, nascido e perdido que foi de mãe argentina com pai brasileño, ou o inverso tanto faz. Da iconografia algo Van Gogh de São Jorge, só o cavalo branco tem as feições bem definidas. O resto é traço bruto. Há por ali um Jesus picassiano, uma Madona híbrida, bruxa. Compro Jorge e a Virgem punk-gótica. Peço para o homem assinar as obras. Com uma bisnaga de cola prateada meio seca, assina Daniel Jesus. Ou, Melchior. Atrás do duratex da Madona, está escrito: La Terra nau es de uma bandera nen de los narcotrafico y religiones de animales egoístas.

O terceiro rei andante mora nas barbas da figueira centenária da Ilha da Magia. “Polenta, porco, torresmo, salame, vin...” Vêm-lhe à lembrança as comidas da infância, nas terras novas do Oeste catarinense, quando lá chegavam as terceiras gerações dos colonos italianos vindos do sul. Maziero, o sobrenome. Se perdeu no mundo. Chaves, o apelido da rua, do seriado mexicano. Balthazar. Ele cumpre sua sina pelas ruas de Florianópolis. Sina, missão, não sabe bem o que é. Atravessa a ilha a pé. Visita o pais. Acende um cigarro para a mãe. Coitada, criou 18 filhos. Deposita o cigarro em um canto do túmulo dos velhos, ao abrigo do vento sul que lambe o cemitério de Itacorubi. Balthazar chora.

Gaspar, Melchior e Balthazar são reais. Seguem a estrela de um menino que teria brilhado ao sul do Novo Mundo, mas que foi se entender com seu Deus-pai e jamais soube desses esfarrapados reis magros.

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