Adriana Antunes: as coisas mais importantes - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião17/12/2019 | 07h00Atualizada em 17/12/2019 | 07h00

Adriana Antunes: as coisas mais importantes

Importar-se tem a ver com o dar de si, dentro do outro

Não dá para medir as coisas importantes com uma fita métrica, nem lhe atribuir um preço. As coisas mais importantes da vida habitam o miúdo das delicadezas e, na maioria das vezes, nem nos damos conta. Está no sorriso do estranho quando você pára o carro para ele atravessar a rua, está num bolso cheio de pedrinhas especiais coletadas num passeio pelo jardim, está no ronrom do gato se aninhando para dormir, nos dedos da pessoa amada que massageiam a nuca depois de um dia cansativo ou num beijo amoroso dado em meio a louça de um almoço de um dia qualquer. Esses pequenos gestos são os melhores presentes do mundo. Observo as pessoas entrando cada vez mais numa roda de samsara buscando presentes para o Natal. Se endividando, consumindo. Eu acredito no poder das delicadezas. Acredito na beleza das palavras escritas num bilhete de amor, no encontro de olhares sejam eles amorosos ou de pedidos de perdão, acredito na força de um abraço dado de corpo inteiro, encostando coração com coração, na alegria que um buque de flores colhidas pelo jardim, rua, mato. Poucas coisas são mais afetuosas do que ganhar o seu bolo preferido de presente, feito pela própria pessoa. Esses presentes plenos de delicadezas são mais do que apenas os objetos em si, são o tempo do outro dedicado a nós. Gosto da ideia de importar-se com o outro. Importar-se tem a ver com o dar de si, dentro do outro.

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Claro que não nascemos assim, nem eu, nem você, já sabendo valorizar o que merece ser valorizado. A vida vai nos ensinando. É a soma das nossas derrotas, das desilusões, dos fracassos, das perdas, da falta de humildade e do excesso de arrogância que aos poucos vai deixando marcas e se somos bons alunos, vamos aprendendo. Nascemos com uma aptidão para a felicidade, mas ela precisa ser trabalhada constantemente, pois não se dá sem dedicação e observação.

A vida não precisa de um protocolo para ser vivida. Somos cada vez mais nós mesmos quando nos permitimos a intimidade conosco mesmos. Às vezes murchamos, como as flores expostas ao sol forte, mas assim como elas, se alguém se importar conosco, logo estaremos plenas e belas, outra vez. E nessa dinâmica fazemos às vezes de flores, do regador, da água, do vaso que sustenta, do sol que fere, da pessoa que protege, da terra que fertiliza e do tempo que espera. Viver numa relação é saber que desempenhamos muitos papeis e que somos responsáveis por todos eles. E acredite, esse é o maior presente da vida.

Esses pequenos gestos de amor e delicadezas são as mais profundas formas de amor, todo o resto é distração do mundo consumista e individualista que habitamos. Nada do que é externo nos salva das piores dores da solidão e do abandono. Importe-se.

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