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Opinião22/11/2019 | 15h58Atualizada em 22/11/2019 | 20h28

Nivaldo Pereira: os perigos da fé

A experiência religiosa é inerente ao homem, e haja altares e faces divinas diferentes pelo mundo

Nivaldo Pereira: os perigos da fé Luan Zuchi / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Luan Zuchi / Agência RBS / Agência RBS
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

O Sol deixou de iluminar as águas fundas de Escorpião para se espraiar no horizonte aberto de Sagitário. Essas imagens ilustrativas da energia desses dois signos vizinhos parecem sugerir que Sagitário é um estágio bem mais confortável de lidar do que as desafiadoras travessias escorpianas. Talvez seja: é mais fácil ter fé e entusiasmo e se entregar ao bem viver do que encarar provações e desapegos. No entanto, tenho mais medo das convicções sagitarianas do que dos conteúdos purgativos escorpianos. Em outras palavras, preocupam-me mais certas devoções sacralizadas do que as ameaças reais das crises.

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Sagitário brota do Escorpião, quando testes, confrontos e perdas tendem a abalar nossos valores. Cabe a Sagitário buscar novos conceitos que ressignifiquem nossa existência no mundo após o enfrentamento de mortes reais ou simbólicas. Supomos ser o homem o único animal que sabe que vai morrer, como também o único com a capacidade de imaginar mundos abstratos que acomodem melhor essa dura realidade. Com essa criativa faculdade mental, inventamos desde leis, filosofias e religiões que organizem e justifiquem a vida até as maravilhas da ciência e do conhecimento.

Também por esse dom de imaginar e atribuir sentido, Sagitário é o signo da fé, uma percepção que não pode ser provada racionalmente, já que evoca uma experiência subjetiva. Se alguém viveu um milagre, quem somos nós para dizer que milagres não existem? A fé e os dogmas derivados dela estarão na base das religiões enquanto narrativas que expliquem o que desconhecemos ou deem significado a vivências radicais, como a morte.

Sagitário é representado pela figura mitológica do centauro, criatura metade cavalo e metade homem – um arqueiro de flecha em riste. É a própria síntese da condição humana, dividida entre instintos animais herdados e a capacidade de elevar-se pela mente em direção à liberdade e ao divino – por isso a flecha do arqueiro aponta para o alto. Nesse híbrido conciliador, é como se o cavalo carregasse a porção instintiva escorpiana, mas esta estivesse agora subordinada ao conhecimento superior do arqueiro.

Essa hierarquia do humano sobre o animal é fundamental para a melhor expressão do signo da justiça e das religiões. Se não houver um honesto exame dos temas sombrios de Escorpião, a ação sagitariana será contaminada por esses conteúdos ocultos. Pulsões de poder e controle e muitos preconceitos podem estar na base de leis e crenças supostamente imparciais. No âmbito legal, é quando as leis são distorcidas em prol de escusas intenções dos julgadores. No religioso, é quando o fanatismo se arvora a excluir os diferentes ou divergentes com requintes de crueldade, em meio a hipócritas discursos de amor e paz.

Aqui mora o perigo que mencionei no começo: os conteúdos emocionais inconscientes por detrás de nossas verdades de fé. Sagitário é a moldura com que interpretamos e julgamos o mundo, mas devemos sempre lembrar que a nossa é apenas uma moldura de visão, pessoal ou culturalmente partilhada, e não a verdade absoluta. A experiência religiosa é inerente ao homem, e haja altares e faces divinas diferentes pelo mundo! Como canta Gilberto Gil, “Maomé, Jesus, Tupã, Jeová, Oxalá e tantos mais: sons diferentes, sim, para sonhos iguais”.

 Sem uma reflexão constante sobre a relatividade e a subjetividade das crenças em Sagitário, o lixo psíquico da fase Escorpião contaminará nossa imagem divina, que se revelará no sinistro direito de punir os diferentes. A história é farta de terríveis guerras santas, como o massacre da Noite de São Bartolomeu, na França, em 1572, quando muitos milhares de protestantes foram assassinados por católicos tementes a Deus e certos de estarem cumprindo uma missão sagrada.

Ainda hoje, a intolerância religiosa não sai dos noticiários. Diante dos perigos da fé, sinto calafrios quando vejo certos grupos fanáticos e de moral duvidosa alçarem Deus ao topo de tudo. Se o que chamam de Deus for uma extensão de suas ações e valores, estamos fritos.

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