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Opinião08/11/2019 | 18h18Atualizada em 08/11/2019 | 18h18

Nivaldo Pereira: os monstros do pântano

Nivaldo Pereira: os monstros do pântano Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Dias atrás, fiquei perplexo – como se a perplexidade não fosse cotidiana em nosso tempo – com o tom violento e o baixo nível de uma discussão em rede social sobre aspectos da política. Ok, não é de hoje que as opiniões andam inflamadas e radicais, mas meu susto se deu por conhecer um pouco alguns dos envolvidos e sempre ter extraído deles imagens de civilidade, respeito e razão, qualidades contrárias ao que então manifestavam. Cada um queria não apenas ter a verdade dos fatos, mas principalmente oprimir o opositor. Como explicar esse surto de infantilizado autoritarismo?

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Ampliando a questão, me perguntei o que levaria uma parcela considerável da população a desejar frear, e mesmo eliminar, temas tão caros ao florescer do espírito humano, como liberdade e respeito às diferenças. Que estranhas motivações negam atualmente os valores que melhor definem a humanidade? Como o assunto envolve conteúdos ocultos, talvez um exame da dinâmica do signo de Escorpião acenda algumas luzes.

No mapa astrológico do Brasil, Escorpião está localizado no ponto culminante, o chamado Meio do Céu, associado ao poder e ao governo. Evocando Carl Jung, se há algo errado com a sociedade, há algo errado com os indivíduos e comigo também. Então, para que o sol da liberdade brilhe em raios fúlgidos sobre o céu da pátria, é preciso que nossas sombras pessoais sejam iluminadas antes. E as jornadas de confronto com as sombras, em busca de superação ou purificação, são do repertório de Escorpião.

Na mítica jornada do herói, uma etapa crucial é a batalha de vida ou morte contra um monstro terrível numa caverna. Como a luta de Hércules com a Hidra de Lerna, um mito comumente associado a Escorpião. Vivendo num pântano de Lerna, a Hidra era uma horripilante e gigantesca serpente de nove cabeças e veneno letal, cujo hálito pestilento espalhava morte ao redor. Mesmo para o homem mais forte do mundo, a empreitada não seria fácil: a Hidra se escondia numa caverna escura, e suas cabeças, quando cortadas, renasciam em dobro. Como enfrentar essa potência do mal?

Hércules, primeiramente, lançou flechas em fogo para dentro da gruta, obrigando a Hidra a vir para fora. Imerso no pântano, o herói cortou com a espada algumas cabeças do monstro, somente para verificar que, de fato, elas se multiplicavam. Já quase enfraquecido pelos vapores tóxicos, Hércules lembrou de um conselho de seu mestre: quando ajoelhamos, subimos; quando renunciamos, vencemos. Ajoelhando-se por baixo da Hidra, o herói ergueu-a para fora da água, expondo-a à luz solar. Como se por mágica, a Hidra foi se desmanchando, até restar somente uma cabeça, imortal. Ao decepar essa última, para enterrá-la, Hércules encontrou lá dentro uma joia brilhante.

As imagens desse mito são sugestivas. As águas pantanosas sugerem emoções primitivas e destrutivas que circulam em nós e que precisam ser drenadas por nosso herói interior. A Hidra encarna nossas compulsões e desejos reprimidos, nossas rejeições e vícios, que se fortalecem no escuro do inconsciente, imunes aos cortes afiados do discurso racional. Ajoelhar-se é

reconhecer corajosamente a existência do monstro em nós mesmos, já que a negação somente o potencializa. E trazê-lo à luz da consciência – ah, isso é catarse, é cura, é a recompensa da riqueza simbolizada pela joia preciosa.

Sem enfrentar com consciência e honestidade a nossa própria Hidra, a tendência será enxergá-la do lado de fora. Assim, o problema será sempre os outros, cujos desejos diferem dos meus, cujas opiniões são toscas e cujas posturas são egoístas. Ah, como o mundo ficaria melhor se algumas pessoas ou grupos desaparecessem! Nossa Hidra autoritária quer sangue e morte! No entanto, bem civilizados, pregamos a paz e a tolerância...

Essa crua reflexão é a parte que nos cabe no latifúndio externo de sombras. Assumir isso não é para os fracos. Escorpião sabe que não há cura sem dor. E, se for para curar mesmo, vale encarar uma ferroada na ferida.

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