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Opinião01/11/2019 | 16h45Atualizada em 01/11/2019 | 16h45

Nivaldo Pereira: brilhando no escuro

Nada de novo nasce sem que algo antigo se rompa, e essa regra se impõe desde a bolsa uterina que nos jogou para o mundo

Nivaldo Pereira: brilhando no escuro Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

No contexto de incertezas decorrente da crise do neoliberalismo e da falta de narrativas atualizadas para o mundo, o historiador israelense Yuval Harari situa a desorientação moderna: “Ainda estamos no momento niilista de desilusão e raiva, depois da perda da fé nas narrativas antigas, mas antes da aceitação de uma nova”. Essa falta de perspectivas e garantias, que ativa nostalgias conservadoras e outras perigosas soluções, afeta cada trabalhador, cada pessoa, em todo canto. E como estamos vivendo o ciclo zodiacal de Escorpião, signo dos enfrentamentos realistas do que se revela problemático, cabe uma reflexão sobre como lidar com as crises.

Escorpião e seu regente, Plutão, se associam às crises que renovam a vida, ainda que seja preciso encarar dores e perdas, e a morte, em seus múltiplos sentidos, tenha que se fazer presente. Nada de novo nasce sem que algo antigo se rompa, e essa regra se impõe desde a bolsa uterina que nos jogou para o mundo. Vale lembrar que nascemos chorando, como a indicar que nenhuma transição é fácil.

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Alguém já disse que sortuda é a lagarta, que se transforma em borboleta protegida por um adequado casulo. Já nós, humanos, em sucessivos ciclos de travessias externas ou emocionais, temos que seguir nossa rotina normal, mesmo no escuro depressivo, mesmo despedaçados por dentro. Ah, quisera pudéssemos sumir por um tempo, até as coisas clarearem! Mas a vida não costuma funcionar assim. Pelo contrário, parece ser sempre nas crises que conheceremos forças insuspeitadas de nosso interior.

É na energia de Escorpião que seremos confrontados com nossos conteúdos ocultos, sejam venenos a serem purgados ou talentos ainda não reconhecidos, que precisam, em ambos os casos, chegar à luz da consciência. E essa luz – ó mistério da vida – costuma se engendrar na hora mais escura de nossa noite interna. Não foi à toa que os antigos representaram esse aspecto da natureza na figura de um escorpião, animal misterioso que age melhor na completa escuridão. Sobreviver é lei instintiva para o escorpião, tanto que ele é uma das criaturas mais antigas da Terra, capaz de se ajustar a todos os habitats e de suportar muitos meses sem comer. E as defesas são inatas: quanto menor o bicho, maior a potência do veneno no ferrão.

Mais recentemente, um mistério vem intrigando os cientistas: esse animalzinho brilha no escuro quando submetido à luz ultravioleta! Como a ilustrar essa relação mágica entre luz e treva, estudos médicos recentes estão aplicando toxinas extraídas de escorpiões sobre áreas em que houve tumores malignos. Se ali ainda houver células cancerosas, estas, e apenas estas, brilharão na luz ultravioleta. Não é por nada que Escorpião é um signo de cura. E também das crises que antecipam as curas.

Sem as tensões e depressões da crise, a consciência não se expande. E aceitemos ou não, eliminar cascas é natural. Além do animal que nomeia o signo, a serpente também simboliza Escorpião. O amplo espectro de associações desse réptil em várias culturas – de peçonhenta indutora do mal a imagem de sabedoria e iluminação espiritual – já ilustra a complexidade da energia de Escorpião. De certo modo, somos como serpentes que, seguindo um imperativo natural, ciclicamente devem trocar de pele para poder crescer.

Só que, num mundo de orientação acumulativa e materialista – reflexo de Touro, signo oposto a Escorpião –, perdas nunca são bem recebidas pelos humanos. Podemos até nos sentir limitados pela estrutura da pele antiga, em reconhecido desconforto, mas quem disse que vamos aceitar de cara o abandono do controle ou o exame corajoso de nossas falhas e fragilidades?

Por isso, coragem grande é aceitar que um modelo ruiu, que um mundo acabou. Resistir ao novo é como remar contra a correnteza da vida. Sigamos, então, brilhando no escuro e apostando, como no samba de Cartola e Elton Medeiros, que “finda a tempestade, o Sol nascerá”. E estaremos, no mínimo, mais fortes.

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