Gilmar Marcílio: não sou o outro - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião15/11/2019 | 07h00Atualizada em 15/11/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: não sou o outro

A questão é saber até que ponto somos tocados pela ofensiva alheia

Se alguém fecha a frente do meu carro quando estou dirigindo, não preciso revidar com grosserias ou persegui-lo para tomar satisfação. Se respondem de maneira ríspida a uma pergunta que faço, não há necessidade de despejar palavras de baixo calão, pois assim estarei me igualando a eles, numa atitude que considero desprezível. Há uma infinidade de exemplos que podem nos mostrar que a inteligência tem que se sobrepor à impulsividade. Sim, a conduta mais imediata costuma ser a de rebater no mesmo tom a agressividade com que determinadas situações nos atingem emocionalmente. Mas, agindo dessa maneira, não estaremos nos tornando mais admiráveis aos olhos de outrem e, mais importante, aos nossos próprios. O que nós, ocidentais, costumamos chamar de passividade, impregnando o conceito de sentidos negativos, para um oriental treinado na contenção de sua raiva simplesmente representará algo sem relevância. A questão é saber até que ponto somos tocados pela ofensiva alheia. Contrapor com a mesma linguagem ou deixar-se envolver pelo que o outro faz, pela sua postura, só enfraquece o propósito de nos tornarmos melhores, refinando comportamentos que tendem a ser belicosos.

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Somos testados o tempo todo. A convivência social nos joga em meio a multidões de seres que pensam de maneira diversa. Querer que ajam como pensamos ser o correto é, no mínimo, pretensão. Precisamos treinar a mente para que ela reaja a circunstâncias de stress com mais equilíbrio, sem se deixar contaminar pela raiva e pelo destempero. Há muitas maneiras de conseguir isso. Acabo me arrependendo quando me precipito. Então, toda vez que me deixo arrastar emocionalmente, faço um minucioso exame do que isso representou para mim e prometo melhorar o mínimo que seja quando for confrontado novamente. Desista de ter razão sempre. Até porque a gente nunca sabe o que se passa no interior de quem tende a ser hostil costumeiramente. É difícil sustentar uma postura de conciliação ou de indiferença. Desde crianças somos induzidos a nos insurgir na hora, provando assim que não levamos desaforo para casa. É mais uma das expressões infelizes que nos aprisionam e nos deixam na obrigação de utilizar de toda a adrenalina que o cérebro é capaz de produzir. A sensação que obtemos ao seguir em frente sem exibir nossa pretensa vitória compensa.

Bom é deixar que as ações não sejam definidas por nada exterior a nós. Manter-se incólume é resultado de uma disciplina longamente assimilada. Se for o caso, que xinguem e vociferem. Construa dentro de si um espaço intocado e lance-se ao mundo, sem medo de ser machucado. A delicadeza e a boa educação imperam nas almas bem formadas. Baixe o tom de voz. Respire fundo. Não vale a pena revidar.

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