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Opinião07/11/2019 | 07h00Atualizada em 07/11/2019 | 07h00

André Costantin: Benedito Ramiro

Em seu batismo formado por dois nomes próprios, fortes, autônomos, Benedito Ramiro parece dizer de dois homens em um só

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Antes de concluir estes diários amazônicos, desde as crônicas das últimas semanas, por deságue de memória, gostaria de deixar escrito o nome de um caboclo ribeirinho do rio Paru: Benedito Ramiro. O vulto desse homem já se viu refletido nos olhos negros de uma onça; o medo de um entrou pelas narinas do outro, em transe de morte.

Em seu batismo formado por dois nomes próprios, fortes, autônomos, Benedito Ramiro parece dizer de dois homens em um só. No entanto estou diante do mais uníssono dos habitantes dessa paisagem, reto, sólido, uma rocha sem fissuras; mil marcas do tempo entrecortadas no rosto, camisa aberta deixando ver o abdômen firme, couro curtido, setenta e tantos anos — o que não é pouco na vida da Amazônia profunda. Um raro ancião, sabedor de histórias e memórias antigas nas margens desse imenso rio.

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A imagem de Benedito surge assim que o Gaia atraca no tablado de palafitas da comunidade de Bela Vista — lugar que nos últimos tempos esvaziou-se de gente, ficando apenas no espectro simbólico do vilarejo primitivo. Talvez por isso, tendo restado tão poucas e dispersas almas, o aldeamento pareça estar menos submetido à dominação das igrejas e seus sedentos pastores evangélicos, capitães das sagradas escrituras.

Ainda assim, na manhã seguinte, basta começar a gravar um depoimento com Benedito Ramiro e logo encosta uma canoa no estaleiro da casa, de onde sobe um casal em ares de autoridade eclesiástica, entre bênçãos e beija-mãos com jeito de quem veio fiscalizar o que está acontecendo naquela imaginária jurisdição espiritual.

Cruzam tais visitantes diante da câmera, amuados, sem audiência. Pois Benedito Ramiro é o personagem que importa: fez a vida de mateiro, no grande ciclo da borracha. Entrava na mata, em temporadas de seis ou sete meses ininterruptos, lidando na extração e transporte do látex. Então os caboclos viviam só da caça e da coleta. Eram eles e a floresta. Longe de casa, de tudo.

Benedito não conta vantagens. Em outros tempos, foi também caçador de onças — era trabalho de viver. Negociantes subiam o rio para comprar as peles dos animais. E foi uma dessas feitas entre tocaias e armadilhas, que o caboclo viu-se de cara com uma onça pintada, desarmado, só, humano. Foi poupado pelo animal. "Dizem que a onça só come preto com açúcar" — sorri Benedito. "Por sorte, não havia!"

Dias depois, sentindo o balanço do Amazonas nas redes do Gaia, penso na vida, tão perto de tudo, tantos meios — e linear. Eu queria ser Benedito Ramiro.

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