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Opinião14/11/2019 | 07h00Atualizada em 14/11/2019 | 07h00

André Costantin: batendo pino

Por isso eu me lanço de novo lá no Gaia, navegando pelo rio Paru

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Resisto voltar mentalmente ao deboche que se tornou o país. Assim, vou esticando na memória essa doce alienação da realidade, em fragmentos dispersos da navegação do Gaia pelos rios Amazonas, Tapajós e Paru.

A gota d’água para esta minha insistente fuga amazônica é a notícia banal, lida em um jornal de ontem: “presidente quer acabar com a tomada de três pinos”. Não vou além da manchete. Desvio o olhar do smartphone para as texturas de uma madeira escorada na parede da sala de jantar.

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É o corte transversal de um tronco de árvore, com uma polegada de espessura, insinuando o desenho de uma gota – escultura espontânea das antigas entradas na floresta empreendidas por Benedito Ramiro, de quem recebi o presente, pelo simples fato de tê-lo admirado, em sua casa de palafitas. “Madeira boa; Pracuúba, o nome dela” – dizia-me o velho ribeirinho.

Mas a lembrança daquele encontro, às margens do rio Paru – eu, velho da terra firme, também guardo madeiras simbólicas do bosque de casa –, termina a meio metro da peça arqueológica de Ramiro. Pois ali está uma tomada de energia – choque da realidade –, com seus três pinos: fase, neutro, terra.

Na casa dos meus pais – que em suas infâncias nem conheciam a luz elétrica – havia as singelas tomadas com dois pinos. No banheiro, uma se destacava: era do padrão universal, com os dois orifícios redondos, sobrepostos a duas cavidades verticais, estreitas. Prática e bem bolada. Com o tempo, o aterramento das casas evoluiu; deixou de ser apenas aquela sinistra barra de metal fincada no chão, no contador de luz, e migrou para todos os pontos de energia, acrescentando assim um terceiro fio às redes domésticas.

Desde então, seguem-se duas décadas de uma farra perdulária de modelos e normas de tomadas, para alegria dos fabricantes e vendedores do templo: padrão americano X europeu, pinos simétricos, chatos, grossos, finos, atravessados, uma coleção insana de “T”s e adaptadores.

Essa novela já é velha por aqui e bem traduz o nosso jeito de ser. Alguém um dia disse que o Brasil não é um país sério – frase que o senso comum atribui a Charles de Gaulle. Eis que até as nossas tomadas de luz provariam o dito, em suas infinitas e toscas miniesculturas do padrão nacional.

Agora, para completar o circo elétrico, eis o presidente da República, binário, com seus dois neurônios, tão incapaz de entender o país como um simples fio-terra; vem ele implicar com os três pinos das tomadas. Por isso eu me lanço de novo lá no Gaia, navegando pelo rio Paru.

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