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Opinião26/11/2019 | 10h52Atualizada em 26/11/2019 | 10h52

Adriana Antunes: uma arvirona

Fico sempre impressionada com a capacidade que as crianças tem de inventar palavras

Fico sempre impressionada com a capacidade que as crianças tem de inventar palavras. Dias atrás uma me chamou a atenção para uma arvirona. Sim, atrás de onde estávamos existia uma arvirona, e enquanto o pequeno se impressionava com o tamanho da árvore, eu me impressionava com o fato de como nós, adultos, perdemos a capacidade de inventar e imaginar. Sim, porque arvirona é muito mais que uma árvore. É um ser mágico, imantado de vida. Infelizmente vivemos num mundo cada vez mais racional, controlador, mecanicista e utilitarista.

As crianças entram na escolinha às 7h da manhã e saem às 19h. É imposto a elas uma rotina de atividades que além de acelerar o processo de contato com o mundo real e adulto, rouba delas o tempo de infância e, infância é tempo de brincar, de correr, de suar, de ver desenhos nas nuvens, de observar as formigas, comer fruta no pé, riscar paredes, jogar bola, dormir na grama, se sujar, comer barro, descobrir a natureza. Substituímos isso tudo por aulas de inglês, balett, natação, reforço escolar e medicação. Substituímos o imaginário e o tempo livre do faz de conta por uma rotina massacrante e que precisa se adequar aos horários dos pais. Depois, em algum momento, iremos reclamar que nossos filhos tem dificuldade de socializar, de se relacionar e conviver com os outros, são agressivos na escola e preferem às tecnologias e mídias sociais a conversar. 

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Abrimos mão da imaginação e queremos que o mundo dê conta do buraco imenso que vai se abrir diante de nós, ali, logo na frente. A imaginação é como um unguento raro, desses que curam todo tipo de dor, principalmente a de alma. Quando deixamos as crianças imantarem o mundo, preenchemos a vida por dentro, como as minhocas fazem na terra, mas para isso é preciso amor, disposição, disponibilidade, amor, tempo, paciência, amor, dedicação, generosidade, amor. 

Se queremos um mundo melhor, mais amoroso e menos violento, precisamos fazer a nossa parte como pais e educadores. Precisamos aprender a ver de ouvido, a ouvir descolonizando o ouvido, deixando de lado as padronizações pedagogizantes que separam o mundo entre o correto e o errado. Manoel de Barros, poeta matogrossense, fala que precisamos aprender a ouvir os dizeres de passarinho, ou seja, a voltar a ter contato com a primeira língua, antes da escola ou da alfabetização ou introdução da criança no mundo concreto. Precisamos voltar a aprender a linguagem do afeto, da ternura, do respeito ao tempo do pequeno e a nos reconectarmos com o nosso desejo de ter filhos e fazer deles sujeitos humanos de verdade.A palavra precisa encarnar na criança, ajuda-la a dar sentido ao mundo e precisa depois desencarnar, para que ela possa ser livre para falar de arvironas, fazer tratagens com os amigos e ter um desapetite para inventar coisas de adultos.

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