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Opinião05/11/2019 | 07h00Atualizada em 05/11/2019 | 07h00

Adriana Antunes: sobre reis

O rei acha que possui poderes sobrenaturais, herdados do Senhor, assim sabe de tudo e não carece que lhe digam nada. Ele sabe fazer

Na construção de ideologias e espaços de poder gasta-se muito dinheiro, dinheiro do contribuinte que, desatento, iludido ou ignorante, acredita ser necessário para o surgimento de uma nova era. Mas não é só o dinheiro, gasta-se a crença, o desejo e o sonho da mudança. E o rei, embora não queria (talvez não saiba, mesmo) vai se parecendo cada vez mais com um ser desprovido de razão, cheio de uma coragem lunática, ímpetos megalomaníacos e sem medo de passar fome. Tudo para tornar-se famoso. O rei acha que possui poderes sobrenaturais, herdados do Senhor, assim sabe de tudo e não carece que lhe digam nada. Ele sabe fazer. 

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Claro que seu fazer tem falhas, talvez só ele não veja (ou não sabe, mesmo), mas em sua cabeça, é capaz de resolver tudo, magicamente, inclusive o que não compreende. Talvez não passe de um tolo, afinal não sei se governaria de outro modo, se tivesse nascido sem cabeça. E dias atrás uma pessoa me disse que não acredita em nada que a imprensa fale. Disse que é tudo mentira e a imprensa é a maior criadora de fake news. A escuridão aumenta. A paciência diminui. Complicada essa equação. Nós cometemos erros, não dá pra negar. Uma desordem se instaurou e ela vigora pelo contrário. 

Uma outra pessoa me disse que o feminismo é ultrapassado, que não há racismo no Brasil e que a Terra é sim, plana. Sim, as pessoas falam essas coisas sem um pingo de vergonha (ou compreensão de tamanha falta de conhecimento) e elas estão sentadas do nosso lado no bar, no escritório, em sala de aula, fazendo compras no super, na fila do cinema. Talvez por isso o rei tenha tanta força. É a seriedade da pessoa (ou a falta dela) que dá o tom do discurso. Discurso panfletário, curto e minúsculo. Feito para ser lido rápido e sem questionamentos. E quem questionaria? Perguntas incomodam. 

Falemos do rei, da sua carruagem, dos bailes que realiza, das viagens a terras longínquas, do belo corte de suas roupas, das pessoas que compõem a corte. Guardo uma simpatia pelo bufão. Veja, é possível existir arte mesmo dentro de lugares assim. Claro que sua cabeça pode ser cortada, mas é brincando que diz as verdades e o rei e sua trupe, tão ingênuos, nem percebem que estão sendo motivo de chacotas. Os irmãos Grimm eram expert em recontar essas narrativas. Gosto muito de contos de fadas, principalmente os originais, os de antes de Perrault. Infelizmente ironizar não resolve os problemas. Quando as falas distorcidas se multiplicam, o discurso torna-se hegemônico; quando as maldades aumentam, tornam-se invisíveis; quando a angústia torna-se insuportável, não se ouve mais o choro e como diz Brecht, os gritos caem como chuva de verão. 

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