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Opinião12/11/2019 | 10h16Atualizada em 12/11/2019 | 10h16

Adriana Antunes: comida é tudo

Quando comemos conhecemos um pouco do outro, seus costumes, sua tradição, seus afetos e identidade

Nosso apetite é o que há de mais forte em nós. É por causa dele que vivemos, viajamos, estudamos, nos alimentamos, amamos. Gosto de experimentar temperos novos, ler sobre o assunto, visitar restaurantes, comer na rua, nas festas de colônia, até na rodoviária. Minha mãe sempre conta que eu era uma criança que a fazia passar vergonha, pois sempre que visitava alguém com ela, logo chegava dizendo que estava com fome, para desespero de dona Tereza. 

Comida sempre foi um assunto tão do coração que meu mestrado é sobre gastronomia e literatura, afinal além de gostar de comer sempre quis saber o que se passava na barriga das outras pessoas. Isso porque comida é cultura como afirmam Massimo Montanari, Gilberto Freyre, Luís da Câmara Cascudo, Margaret Mead, Brillant-Savarin e tantos outros que dedicaram seus estudos a este tema tão cheio de saber e sabores. 

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Quando comemos conhecemos um pouco do outro, seus costumes, sua tradição, seus afetos e identidade. Na mesa não existem intolerâncias. A comida une países, pessoas de culturas diferentes e as fronteiras se desfazem quando compartilhamos o alimento. Comida é lugar de encontro, de memória, por isso, a maioria de nós gosta de comer em companhia. É quando pausamos a vida e sentamos para realizar uma refeição que sentimos vontade de conversar, de falar e ser ouvido e assim, recriamos a nossa humanidade. Por isso, também, acho muito estranho pessoas que não se permitem experimentar novos paladares.

Dias atrás visitamos um restaurante de culinária turca, que abriu há pouco tempo em Caxias. Um lugar simples, de ótimo atendimento e comida deliciosa. Matamos a saudade do pão com Babaganoush e com Homus, do Kebab de falafel, do sherbet e para encerrar, comemos baklava. (Enquanto escrevo já sinto salivar). Não, eu não sou turca, sou uma mistura de muitas etnias e, talvez por isso, goste tanto do encontro com outros espaços e territórios que a comida proporciona. 

Bom, eis que na mesa ao lado uma senhora implicou com o cardápio, ela queria outro tipo de comida. Relutou, relutou e decidiu que queria uma salada. O garçom mostrou as opções e ela queria uma salada simples, diferente da que ele tinha ali. Fiquei pensando que talvez ela estivesse a fim de comer um radicci com bacon, mas logo me questionei, por que uma pessoa vai comer num lugar diferente e quer comer o mesmo de sempre? 

Essa é a mesma lógica de pessoas que vão viajar para fora do país e decidem comer em fast foods conhecidos (comida globalizada, padronizada e mercantilizada). Acho isso uma lástima. Apenas adquirimos cultura com a viagem quando visitamos museus, galerias de arte, entramos em contato com a língua daquele local e comemos em restaurantes típicos, aqueles que os moradores frequentam. E já que a economia está complicada e não viajamos, deveríamos nos permitir visitar nossos restaurantes mais abertos a novas experiências. Nós saímos do nosso almoço turco com um pedaço da Turquia em nossas barrigas felizes e cheias.

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