Tríssia Ordovás Sartori: quanto maior a expectativa, maior a frustração? - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião04/10/2019 | 16h41Atualizada em 04/10/2019 | 17h40

Tríssia Ordovás Sartori: quanto maior a expectativa, maior a frustração?

Tenho me policiado a deixar minha expectativa sobre situações e pessoas em um nível mínimo de exigência

Tríssia Ordovás Sartori: quanto maior a expectativa, maior a frustração? Fábio Panone Lopes/Especial
Foto: Fábio Panone Lopes / Especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Todo mundo já deve ter se deparado com um meme que traz algum par de imagens e faz referência à diferença entre a expectativa e a realidade. Na primeira, aparece algo maravilhoso, na segunda, o oposto  disso. No âmbito das bobagens de redes sociais, essa oposição é até engraçada. Na vida real não é tanto.

Tenho me policiado — e, por isso, considero um exercício dificílimo — a deixar minha expectativa sobre situações e pessoas em um nível mínimo de exigência. Ninguém está aqui para corresponder aos nossos anseios sobre nada, e a constatação é absolutamente clara para mim. Mas, volta e meia, insisto em esperar algo em troca, nem que seja reciprocidade, e acabo me frustrando. Eis uma das relações mais diretamente proporcionais existentes: quanto maior a expectativa, maior a frustração. 

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Para usar um exemplo pessoal, lembro uma viagem de tempos atrás. Passei anos querendo ir ao Marrocos, super encantada por tudo aquilo que imaginava que o país fosse. Estava curiosa para conhecer suas cores e seus sabores. Ao pisar lá pela primeira vez — Casablanca foi minha porta de entrada —, fiquei um tanto quanto decepcionada. O lugar é culturalmente rico e relativamente exótico, mas é absolutamente diferente do que tinha esperado. 

Passei parte da viagem querendo conhecer os curtumes de Fez, que são medievais. O maior deles está dentro da medina (um lugar fantástico!) e se chama Chouara Tannerie. É aquele que está estampado em fotos que “vendem” o país, com espécie de células que vistas de cima parecem uma paleta colorida de tintas de aquarela. Depois de alguns dias, chegou o momento tão esperado.

É preciso ir a um terraço para contemplar o curtume e, antes de subir as escadas, o visitante recebe um maço de hortelã. A função da erva é prolongar o tempo de observação, já que o couro claro é curtido com cocô de pombas, acrescido de uma mistura de ácidos e xixi de vaca. O cheio é muito muito muito desagradável e é sentido de longe. Não dá apenas para contemplar a vista, que é fantástica, tamanho o incômodo. Ou seja, a imagem que tinha ganhou outra percepção. Já em Marrakech, na praça Djemaa el Fna, a principal da cidade, os famosos encantadores de serpentes bailam com najas. Mas as cobras estão tão cansadas, que em vez de impressionar, chegam a dar pena. 

Ao deixar o país, no aeroporto, encontrei um casal de porto-alegrenses que voltava da Itália. Fui perguntada sobre meu destino. Marrocos, falei. O senhor me olhou sério e disse: "para mim, Marrocos é como operação de apendicite: é ruim, dói, mas pelo menos a gente faz só uma vez na vida". Rimos do exagero. 

Tenho amigos, no entanto, que amaram o país, por diferentes motivos, e não hesitariam em voltar. Eu mesma até já arriscaria um retorno, só para ver as coisas de forma diferente.

Ou seja, o problema não está no país, mas no que eu imaginei que ele fosse.

Isso vale para quase tudo, né? O único jeito de tentar evitar as decepções é não esperar demais (ou  quase nada) dos outros, das situações, dos lugares. As pessoas e as coisas são o que são — e nem sempre o que e como gostaríamos que fossem. A única forma de aproveitar o percurso é ter a certeza de que é melhor substituir a expectativa pela surpresa e, quando ela vier, ficar feliz ao se deixar maravilhar. 

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