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Cinema29/10/2019 | 07h00Atualizada em 29/10/2019 | 07h00

O Iluminado tem sessão única nesta terça-feira, em Caxias 

Filme de Stanley Kubrick, a ser exibido no GNC, merece um olhar atento do espectar, que deve assistir a obra para além do pavor que as cenas de horror provocam

O Iluminado tem sessão única nesta terça-feira, em Caxias  Luan Zuchi/ilustração
Hotel Overlook é o cenário do filme, mas também uma espécie de personagem que guarda segredos e mistérios sobrenaturais Foto: Luan Zuchi / ilustração

Nesta terça-feira, dia 29 de outubro, às 21h, ocorre uma sessão histórica no GNC Cinemas, sala 5, em Caxias do Sul. Será exibido O Iluminado, um dos clássicos do cinema de suspense e horror, dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999). O filme é um preâmbulo para a estreia de Doutor Sono, previsto para o dia 7 de novembro. Em Doutor Sono, o protagonista, Danny Torrance (Ewan McGregor), revisita os acontecimentos de O Iluminado, 40 anos depois. Para encurtar a história, Danny é o menino do triciclo, que andava pelos corredores do Hotel Overlook, no filme do Kubrick.

Agora vamos aos acontecimentos de O Iluminado. O filme é um tratado sobre a fala que ama. Já explico. Não se trata de romantizar um personagem demente e psicopata. Mas há em Jack Torrance, interpretado pelo brilhante Jack Nicholson, sinais de um cara que viu a vida esvair-se. Intolerância, pequenas e sucessivas frustrações, falta de foco e concentração, são parte desse coquetel que aos poucos passa a ser acrescido por situações sobrenaturais que chegam para flertar e ocupar esse vazio existencial de Jack.

Jack Nicholson interpreta o personagem Jack Torrance, em O Iluminado, de Stanley Kubrick.
Jack Nicholson interpreta Jack Torrance, em O Iluminado.Foto: Warner / Divulgação

Wendy Torrance (Shelley Duvall) ama Jack e juntos têm um filho, o doce, inteligente e sensível Danny (Danny Lloyd).  Sem muitas perspectivas profissionais, Jack resolve aceitar o desafio de isolar-se com a família no Hotel Overlook. O combinado era zelar pelo hotel, mas Jack vai inserir um novo elemento surpresa a esse tempo em família. 

O Iluminado é um filme sensorial. Bizarro, também. Mas sobretudo sensorial. Cujo prazer de Kubrick está em deixar o espectador em suspenso a cada sequência de imagens. Horror é prever o final, suspense é conduzir a plateia até o desfecho. O pai desse maniqueísmo cinematográfico é Alfred Hitchcock (1899-1980), que ironicamente morre no ano do lançamento de O Iluminado

Shelley Duvall interpreta Wendy Torrance, em O Iluminado, de Stanley Kubrick.
Shelley Duvall, interpreta Wendy Torrance, em O Iluminado, de Stanley Kubrick.Foto: Warner / Divulgação

Hitchcock desenvolveu ao longo da carreira um padrão para deixar espectadores em suspenso. Psicose (1960) é uma referência sutil, mas possível, para O Iluminado, na medida em que a casa (em Psicose) e o hotel (no filme de Kubrick) são ambientes muito propícios para fazer brotar a demência, porque há segredos malditos escondidos atrás da porta dos quartos, da mãe do Normam Bates, em Piscose e, do apartamento 237, em O Iluminado.

Conforme avança a narrativa de O Iluminado, percebemos um maior distanciamento entre a família Torrance. Jack passa os dias e noites tentando escrever um romance, enquanto que Wendy, além de cuidar da lida doméstica, tenta sem sucesso aproximar-se do marido, cada minuto mais recluso. Nesse vácuo, Dany passeia pelos longos e silenciosos corredores do grande hotel. 

Danny Lloyd interpreta o personagem Danny, em O Iluminado, de Stanley Kubrick.
Danny Lloyd interpreta Danny, em O Iluminado. Na sequência, Doutor Sono, o personagem é vivido por Ewan McGregor.Foto: Warner / Divulgação

Sozinhos, mesmo morando sob o mesmo tempo, isolados, mesmo sentados na mesma mesa, cada um vai encarando o seu terror particular, que aumenta de intensidade e horror conforme avança a narrativa. Stephen King, o autor da história que serviu de inspiração para o filme, odiou o resultado. Kubrick, na época, rebateu dizendo que sempre escolhe livros ruins para fazer filmes brilhantes.

Joaquin Phoenix interpreta Arthur Fleck, o Coringa
Joaquin Phoenix interpreta Arthur Fleck, o Coringa, de Todd Phillips.Foto: Warner Bros / Divulgação

Em tempos de febre de Coringa nas telas do mundo afora, nada mais justo do que referenciar Stanley Kubrick. O diretor norte-americano, que se estivesse vivo, teria completado 91 anos, sempre tratou de expor na tela grande personagens tratados muitas vezes de forma rasa como desajustados.

Jack Nicholson interpreta o personagem Jack Torrance, em O Iluminado, de Stanley Kubrick.
Jack Nicholson interpreta Jack Torrance, em O Iluminado, de Stanley Kubrtick, cujo olhar é a expressão de outros personagens como Coringa.Foto: Warner / Divulgação

O olhar de Jack, em O Iluminado, é o mesmo de  Alex (Malcolm McDowell) em Laranja Mecânica (1971), e o mesmo do recruta Pyle (Vincent D'Onofrio) em Nascido para Matar (1987), só para citar outras duas obras de Kubrick. Assim como é o olhar de Coringa (Joaquin Phoenix), triste, distante, apático, que revela-se em mesma medida, grito de clamor (ternura silenciosa) e sonido de ira (agressão física).

Vincent DOnofrio interpreta o personagem soldado Pyle, em Nascido para matar, de Stanley Kubrick
Recruta Pyle (Vincent D'Onofrio) em Nascido para Matar (1987), de Stanley Kubrick.Foto: Warner / Divulgação

Há nesses personagens qualquer coisa que diz ser a falta que ama a rasgar-lhes o peito. Justificam seus feitos terríveis, empilhando mortes por onde passam. Claro que não justifica-se. Mas matar é a metáfora da dor interior, das agressões sucessivas a que foram alvejados (seja com palavras ou com violência física e sexual). Em uma sociedade cada dia mais preocupada com o extermínio dos que são diferentes, em padronizar os inclassificáveis, e amordaçar os inconformados, Kubrick continua a ser essencial.

Malcolm McDowell interpreta o personagem Alex, em Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.
Alex (Malcolm McDowell) em Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick.Foto: Warner / Divulgação

Há muito para refletir acerca de filmes como O Iluminado. Enxergar o terror é só uma das camadas de leitura da obra de Stanley Kubrick. No centro de toda a sua obra está o ser humano que está a ser abusado de todas as formas possíveis. É demais cobrar empatia, estender a mão ao invés de tocar fogo em mendigos e índios, dar a segunda chance ao invés de assinar a pena de morte?

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