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Opinião11/10/2019 | 17h16Atualizada em 11/10/2019 | 17h16

Nivaldo Pereira: a libriana harmonia

É tempo de Libra, signo da balança, símbolo do humano dom da comunhão

Nivaldo Pereira: a libriana harmonia Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Outubro. O mês que começa celebrando São Francisco de Assis nos convida a também querer ser um instrumento da paz, levando amor aonde houver ódio, união aonde houver discórdia e perdão aonde houver ofensa. É tempo de Libra, signo da balança, símbolo do humano dom da comunhão. No céu de outubro, Marte, o belicoso senhor da guerra, também transita por Libra. Neste domicílio de Vênus, deusa do amor e da beleza, quem sabe o guerreiro inflamado se desarme, quem sabe faça da dura marcha militar uns passos de dança, quem sabe descubra a força maior da concórdia, outro assunto libriano.

Na antiga Roma, havia a deusa Concórdia, encarregada de promover a conciliação, fosse nos acordos gerais ou nos relacionamentos íntimos. Seu nome viria da junção dos termos em latim “cum” (com) e “cordis” (coração), evocando uma união de corações. E poucas imagens são mais inspiradoras e belas do que a de corações unidos por um mesmo propósito!

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A Concórdia romana era equivalente à Harmonia grega, filha do casal Afrodite (Vênus) e Ares (Marte). Harmonia era um contraponto feminino de doçura e equilíbrio aos outros dois filhos terríveis do mesmo casal: Deimos (o pavor) e Fobos (o medo), que hoje batizam, no sistema solar, as duas luas do planeta Marte. Se o truculento guerreiro tocava o terror com seus guris medonhos, Vênus, com Harmonia, era promessa de paz e alegria.

No dicionário, harmonia quer dizer “combinação de elementos diferentes e individualizados, mas ligados por uma relação de pertinência, que produz uma sensação agradável e de prazer”. Essa definição também se afina com Libra, como contraponto a Áries, o signo de Marte. O impulso ariano tende à diferenciação e à individualização. Libra, do lado oposto, oferece a possibilidade de um encontro que seja mais vantajoso ao ariano que a caminhada solitária e competitiva. É quando Marte percebe que conquistar a bela Vênus é muito mais prazeroso do que vencer exércitos inimigos. Dane-se a guerra, o bom é sentir os corações batendo juntos, em literal concórdia!

Esse tema mítico já rendeu incontáveis histórias, reais ou imaginadas, envolvendo o amor entre rivais, vide Romeu e Julieta. Algumas versões do mito de Eros, deus grego do amor, vertido em Cupido pelos romanos, o apontam também como filho de Marte e Vênus. Quando atingidos pelas flechas desse deus, humanos e mesmo outros deuses só queriam consumar o desejo intenso de um amor cego e implacável que ultrapassava as diferenças entre os amantes. Amor “é querer estar preso por vontade”, como já disse o poeta Camões. E embora possa o amor desencadear guerras, que vença sempre Vênus, dirão os amantes!

Bom saber que a deusa Harmonia era irmã de Eros, o amor. Ainda no dicionário, encontramos a palavra harmonia também relacionada à música, falando da combinação de notas para produzir deleite e prazer. E também na pintura, dando conta do equilíbrio de cores, tons e nuanças. Ou seja, a harmonia, como a deusa, aspira ao belo e ao delicado, respira na arte. E Vênus e Libra sabem da força da harmonia como parâmetro de ação e interação. Sabem do valor da estética, na vida e na arte. E viver vira uma forma de arte, plena de graça, charme, estilo e encantamento.

E já que o guerreiro Marte está mais desarmado, em Libra, enredado num clima de música suave, perfume sedutor e uma estranha vontade de conciliar, que tal convidarmos a concórdia e a harmonia para um outubro de autêntica primavera? Vamos de artes, de boas conversas, de celebrações e de reflexões. Ah, vamos de flores também. Toda beleza vai bem. Como disse o libriano Oscar Wilde, não há nada tão trivial no cotidiano que nosso toque não possa enobrecer.

E uma cena final, a que presenciei, certa vez, de manhã cedo: um morador de rua, alojado sob uma marquise, penteava os cabelos mirando um caco de espelho. Ao lado dele, apoiado na parede, havia um velho e desbotado quadro de paisagem. A cena era crua, pela miséria, mas exalava harmonia. Apostei que ele era de Libra...

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