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Educação11/10/2019 | 16h54Atualizada em 12/10/2019 | 13h36

Infâncias tocadas pela música: conheça histórias de quem teve a vida transformada por notas e acordes

Do cantor de rap à violinista erudita, quem tem um encontro com a música faz um melhor amigo para a vida toda 

Infâncias tocadas pela música: conheça histórias de quem teve a vida transformada por notas e acordes Lucas Amorelli/Agencia RBS
Gustavo Pereira, o GP Emici, descobriu no rap a forma de passar as mensagens que acha importante, sobre educação e consciência Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Gustavo Pereira imaginou que seria um passeio rápido. Para o jovem de 16 anos, morador da periferia de Caxias do Sul, Venâncio Aires deveria ser algum bairro da cidade, para onde o rapper Chiquinho Divilas o levava na carona, como convidado do show daquela noite. A ficha só caiu quando o motorista já havia rodado bons quilômetros pela BR-116, deixando a Serra rumo ao centro do Estado: era a primeira vez que o menino, então com 15 anos, levaria suas rimas para além da zona Oeste de Caxias.

— Quando subi no palco e encarei aquela galera toda, senti um arrepio pelo corpo todo. Porque estava vivendo o momento com o qual eu sonhava desde os oito anos — conta o menino, que assume o nome artístico GP Emici.

Seja no contato com um instrumento, com o canto ou a dança, quem descobre a música faz um melhor amigo para a vida toda. Na infância, o poder deste encontro é ainda mais transformador. Não raras vezes, como veremos a seguir, é um divisor de águas.

Para Gustavo, ou GP Emici, foi a união da batida com a mensagem social da linguagem do rap que o fez despertar para o sonho de ser músico. Uma empreitada que ainda na adolescência o fez encarar a primeira provação. Quando os pais, um policial aposentado e uma dona de casa, resolveram se mudar para a casa dos seus avós paternos em Dom Pedrito, o jovem teve de convencê-los a deixá-lo ficar em Caxias. Negociou-se então sua permanência na casa de uma tia, ao mesmo tempo em que arrumou o primeiro emprego, como empacotador num supermercado. Hoje, divide o tempo entre o trabalho, a escola (cursa o 1º ano do ensino médio) e a tentativa de ter uma carreira no rap, que no futuro pretende dividir com a de educador social.

— Conheci o rap numa palestra do Chiquinho, que convidou quem quisesse subir ao palco para cantar sobre uma batida de samba. Cantei uma letra minha e ali nos conectamos. Passei a me identificar ainda mais com ele, que sempre passa a mensagem da mudança que o estudo pode provocar, numa pessoa ou num país. Gosto de escrever sobre o que acho errado, como uma pessoa passando fome ou um jovem metido com as drogas, e é esse caminho, de ter uma mensagem pra transmitir, que eu quero seguir — diz o rapper.

Na praça do bairro Cidade Nova, onde o jovem gosta de passar parte do tempo livre com os amigos ou com o caderno de letras embaixo do braço, o carisma transformou-se em arte. Há dois anos os passantes deparam com seu rosto grafitado na pista de skate pelo artista Andrigo Martins, que identificou nele um personagem marcante daquele lugar.

— O rap ressignificou o processo de passagem da infância para a adolescência dele. Um cara tão novo e que já encara a vida real. Arrumou um emprego para dar um troquinho para a tia, em troca do sonho de continuar em Caxias pra se tornar um MC e ser um educador social. Ele poderia muito bem ter abandonado tudo e se mudado com os pais, mas já está guerreando — elogia o tutor, Chiquinho Divilas.

Cinco orquestras, 70 alunos e duas bandas

 GARIBALDI, RS, BRASIL (08/10/2019)Tiago Andreola começou a tocar violão aos 6 anos. Hoje, aos 35, é professor de música da pequena Luiza Chesini, 8 anos, e do irmão dela, Giuseppe Chesini, 12. Eles e o pai de Luiza, Ricardo Chesini, falam sobre como a música tocou a infância e ainda toca a vida deles. (Antonio Valiente/Agência RBS)
Luiza (com o irmão Giuseppe), em tarde de aula com o professor da pequena, Tiago Andreola. Ambos começaram aos seis anosFoto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Antes de ganhar do pai o primeiro violão, aos seis anos, Tiago Andreola já havia brincado muito com a flauta doce que ganhou de uma tia no primeiro aniversário. Mas sequer sabia se era um brinquedo de soprar ou de bater. Foi, portanto, o instrumento das seis cordas que introduziu o garibaldense, hoje morador de Caxias, no mundo da música. Naquele início de anos 1990, o sucesso do musical da Rede Globo A.M.I.G.O.S, que reunia as mais famosas duplas sertanejas da época, o levou para o ritmo de Chitãozinho e Xororó. Aos oito anos já sabia cantar e tocar Evidências, recorda, aos risos, o músico que hoje circula entre a música erudita e o rock.

Com a adolescência veio a paixão pelo baixo. Aprender o instrumento responsável pelas notas mais graves foi a forma que encontrou, aos 13 anos, de entrar para a banda de rock 'n' roll dos colegas de escola.

Aliando talento e dedicação, aos 17 Tiago percebeu que a música seria mais do que um hobby. Foi contratado para tocar baixo na Orquestra Municipal de Garibaldi. Ganhava meio salário mínimo para ensaiar um dia por semana. Mais do que a remuneração, a orquestra deu a ele a credibilidade de "músico sério" (brinca), e assim começou a dar aulas de violão e baixo. Resultado? Hoje, aos 35 anos, Tiago é músico contratado de cinco orquestras da região: além da de Garibaldi, toca na municipal de Carlos Barbosa, na Fundação Casa das Artes (Bento Gonçalves) e Orquestra Municipal de Sopros de Caxias do Sul, além de reger a Orquestra Jovem do Instituto Tarcísio Michelon, em Bento. Em duas escolas de música de Caxias e outra de Garibaldi, acumula 70 alunos. De quebra, ainda se apresenta na noite com a banda Hardrockers e no quarteto do cantor roqueiro Sandro Stecanela.

— Música é a minha religião, um ideal de vida. O mais legal é que poder conhecer e conversar com pessoas de diferentes nichos sociais, etnias, sem preconceito. Nem o esporte é tão democrático quanto a música, pois depende da aptidão física — compara.

Sobre os ofícios de tocar e ensinar, Tiago não esconde a predileção:

— São prazeres diferentes, mas ainda acho que dar aula tem um prazer especial. Não apenas por ensinar uma pessoa a tocar um instrumento, mas por formar apreciadores de música. Formar plateia. A pessoa que hoje aprende, pode futuramente estar num palco, mas também pode estar na plateia valorizando o trabalho de um artista.

O pai que não levava jeito

 GARIBALDI, RS, BRASIL (08/10/2019)Tiago Andreola começou a tocar violão aos 6 anos. Hoje, aos 35, é professor de música da pequena Luiza Chesini, 8 anos, e do irmão dela, Giuseppe Chesini, 12. Eles e o pai de Luiza, Ricardo Chesini, falam sobre como a música tocou a infância e ainda toca a vida deles. (Antonio Valiente/Agência RBS)
Para Ricardo Chesini, realização é ver os filhos aprenderem e se divertirem juntosFoto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Aluna mais jovem de Tiago, a garibaldense Luiza Nicolini Chesini tem sete anos. Seus dedos pequenos e finos ainda não alcançam todas as notas, mas já conseguem formar os primeiros acordes para tocar algumas cantigas infantis. Determinada, diz que irá esperar até os 10 anos para pedir ao pai a primeira guitarra elétrica para tocar com o irmão, Giuseppe, 12, que faz aulas de bateria. Pai da dupla, Ricardo Chesini se orgulha do despertar precoce dos filhos para a música.

— Eu tentei começar a aprender violão por três vezes, mas não levava jeito nenhum. Hoje eu me realizo vendo eles aprendendo e podendo dar a eles essa oportunidade. Meu maior prazer é servir um vinho e sentar para assisti-los praticar — comenta Ricardo, proprietário de uma loja de vinhos em Farroupilha.

O pai destaca, contudo, que o aprendizado da música, embora incentivado por ele e pela esposa, não pode ultrapassar o desenvolvimento dos filhos:

— Tento não dar a eles logo de primeira tudo o que pedem. Precisam me mostrar que merecem. O menino, por exemplo, começou a tocar num violão para criança, depois pediu um de adulto. Quando comprei, logo ele decidiu que queria tocar bateria. Fiz então uma improvisada, com madeira e borracha, e só depois dele apresentar o primeiro recital na escola ganhou uma de verdade. E só porque o professor me garantiu que ele levava jeito.

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Pai e filha unidos pelo palco

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 09/10/2019 - Adriano Borges, 45, e a filha Sofia Borges, 16, têm na música uma paixão em comum, estimulada pelo pai desde que ela estava na barriga da mãe. Hoje, o baixista e a violinista tocam juntos em um trio de música erudita em Caxias do Sul. Case da reportagem infâncias tocadas pela música. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Sofia Borges e o pai, Adriano, participam de um trio de música erudita. Gravidez da esposa foi o estímulo para o pai retomar a músicaFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Na relação entre pais e filhos, é comum que a adolescência seja um período estranho para ambas as partes, em que interesses divergentes provocam afastamento ou até desentendimentos. Com o empresário caxiense Adriano Borges, 45, e a filha Sofia, 16, deu-se o contrário. Ele, contrabaixista, e ela, violinista, têm na música o ponto de encontro. Junto com o violista Jonas Ramos, formam um trio de música erudita que se apresenta em eventos de moda, aniversários, casamentos. Mais do que o prazer de dividir o palco, compartilham a diversão que os ensaios proporcionam, mesmo quando é para um "zoar" o outro. 

— Às vezes ele me irrita um pouco. Principalmente quando erra, porque aí a gente precisa parar a música para ele acertar. Mas se é a gente que erra, a música não pode parar. Nessas horas eu tenho vontade de jogar o violino na cabeça dele, mas fora isso é divertido — brinca a filha.

Adriano, que no início dos anos 1990 cantava na banda de rock Frutos do Erro, conta que já considerava a música uma página virada da sua vida. O chamado para voltar a cantar e tocar veio em 2002, quando a esposa, Simone, engravidou de Sofia. 

— A partir do quinto mês da gravidez, toda noite eu tocava uma música para a Sofia ouvir na barriga da mãe. Depois que ela nasceu, resolvi realizar meu antigo sonho de ter uma bateria em casa, que acabou se tornando o brinquedo preferido dela. Até o site da marca fabricante da bateria exibiu, por muitos anos, uma foto da Sofia mordendo uma baqueta — recorda Adriano. 

Antes de descobrir o violino, aos oito anos, Sofia já cantava. Toda a formação musical ocorreu no Colégio La Salle, de cuja orquestra o pai também fez parte. Foi com a Orquestra La Salle que pai e filha viveram um momento marcante, que foi acompanhar no palco o maestro e pianista João Carlos Martins, grande nome da música erudita no Brasil, em 2013.

— São momentos muito bonitos, por ter essa oportunidade de tocar junto. Acho que todo pai e toda a mãe gosta de usar aquilo que tem de mais significativo pra si para se conectar com o seu filho. No meu caso, foi a música. Eu olho para a Sofia e enxergo música. Às vezes ela reclama que eu só quero falar sobre música, mas eu também ajudo nos temas da escola — diverte-se o pai. 

O canto que espanta a timidez

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 10/10/2019. Cantora mais jovem do Coro Juvenil Moinho/UCS, regido por Cristiane Ferronato, Luiza Laurini tem 13 anos e quer ser cantora profissional. Ela conta como a música a transformou numa pessoa menos retraída e mais aberta ao convívio. Case da reportagem infâncias tocadas pela música (Porthus Junior/Agência RBS)
Luiza Laurini, 13, é a cantora mais jovem do Coro Juvenil Moinho/UCS. Grupo ajudou a menina a driblar a timidezFoto: Porthus Junior / Agencia RBS

Um dos projetos culturais mais elogiados de Caxias do Sul, o Coro Juvenil Moinho/UCS tem em Luiza Laurini sua voz mais jovem. Aos 13 anos, a menina participa desde os 11 do grupo que reúne cantores de até 29 anos e se caracteriza pela mistura de cores, credos, etnias ou classes. O gosto de Luiza pelo canto remete a incontáveis horas cantando com a mãe e o pai em casa, no videokê. Se na infância o repertório era Sandy & Junior e Trem da Alegria, batendo à porta da adolescência a experiência com o coro fez expandir seu interesse. Aprendeu a admirar os grandes compositores brasileiros, sem deixar de curtir os artistas que fazem sucesso entre os adolescentes. 

— Hoje a gente troca influências. Ela me ensinou a ouvir Lana Del Rey, eu mostrei e ela gostou de Imagine Dragons — conta o pai, o farmacêutico Tarcio Laurini, 45, um apaixonado por música que preferiu ser plateia.

Retraída no dia a dia, a porção artística de Luiza revela uma menina muito mais confiante e desinibida após dois anos de vivência no grupo vocal, entre ensaios, oficinas e apresentações. Traços que tanto a jovem quanto o pai percebem que aos poucos se incorporam à vida cotidiana, como claro benefício da música para encarar a rotina diária.

— Ela sempre foi uma menina mais tímida fora do círculo mais restrito familiar e de amigos. Educada, claro, mas sempre quietinha. Aos poucos isso vem mudando. A gente percebe que ela hoje tem a mente mais aberta e se sente mais à vontade para interagir com as pessoas em qualquer ambiente. Mesmo que a gente sempre tenha estimulado isso em casa, o coro tem sido fundamental.

Luiza, que sonha em seguir carreira na música, conta que os ensaios com o grupo renovam a energia e mudam o seu humor após um dia cansativo na escola. Quando chega em casa, o ânimo é outro.

— Ela chega elétrica — brinca o pai.

Professora de Música da UCS e regente do Coro Juvenil Moinho/UCS, Cristiane Ferronato tem o grupo como objeto de estudo de Mestrado, no qual avalia as pequenas revoluções pessoais que o coral provoca em seus cantores para além do palco, perpassando questões identitárias, sociais e de conhecimento e consciência de si. Cris destaca que a experiência coletiva da música é um elemento profundamente transformador. 

— Acredito muito no poder desse combo de ações do fazer artístico, que amplia percepções de si e do outro. O fato de aprender a ouvir e a afinar com o outro, tanto a voz quanto a energia. Além da realização musical, o Coro tem um forte viés amoroso e de troca de afetos, potencializado pela horizontalidade nas relações e pelo compartilhamento de vontades. Percebo e ouço dos cantores que há uma ampliação de consciências, de posturas e de sensação de bem estar estando no grupo. É como um microcosmo de uma sociedade ideal, por ser esse grupo sem distinções de convívio — analisa.   

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