André Costantin: Joelma - Cultura e Tendência - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Opinião10/10/2019 | 07h00Atualizada em 10/10/2019 | 07h00

André Costantin: Joelma

Mas, quem seria Joelma?

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O Gaia sobe pelo Paru – um rio de 700 quilômetros, que nasce nos limites com o Suriname, corta o norte do Pará até desaguar na margem esquerda do Amazonas. Em suas cabecerias, acima dos cachoeirões que o tornam inavegável de todo, o Paru guarda duas nações indígenas, cujos sinais tornaram-se cada vez mais raros a jusante do rio.

Abaixo da Cachoeira do Panãma, o Paru é um rio caboclo, ocupado por palafitas. São aldeias inteiras conectadas por incríveis estruturas de madeira, reveladoras – em sua aparente simplicidade – de uma arquitetura arrojada e lentamente adaptada ao meio mutante da Amazônia.

Leia mais
André Costantin: Amazônia cabocla
André Costantin: Messias hi-fi

Chegamos a Barreiras, o maior vilarejo do baixo-Paru, assentado – diferente dos demais – em terra firme. Além dos famosos “carapanãs” – mosquitos muito espertos e sedentos de sangue –, comentava-se entre a pequena tripulação do Gaia, ainda na chegada, histórias sobre Joelma, natural de Barreiras. Mas, quem seria Joelma?

Algumas horas depois, em uma ruela com indícios de sinal de internet, surpreende-me uma professora da escola, perguntando quem eu era, porque estava ali etc., dada essa minha cara de estrangeiro dentro do meu próprio país. Logo ela convida a mim e a Oliviero, dono do Gaia, para conhecermos a mansão de Joelma.

Caminhamos por uma vereda de areia, afastando-nos da vila. Perguntava em baixa voz à minha ignorância: Joelma? Oliviero diz então que trouxera, impressa, uma pesquisa na Wikipédia, que eu consultasse depois. O casarão avarandado, com vista para o rio, é um monumento de gosto muito particular, para além do brega. A caminho da ruína, foi cedido como moradia para três professores da escola.

Entramos por uma sala ampla com o teto recortado de lambris; espelhos e lustres remanescentes, sem interesse na forma ou valor. Passarelas levam às piscinas de água podre, revestidas de azulejos com estampas de golfinhos. Um quarto com piso xadrez tem um cavalo branco, enorme, feito de fibra. Volto à varanda enquanto a anfitriã mostra a Oliviero alguma curiosidade do antigo quarto nupcial da popstar Joelma.

Na mirada do rio, vejo uma manada de búfalos sendo tocada para a travessia por dois tropeiros, que, depois, à curta distância, não passam de dois meninos a pé e um cão vira-lata, felizes. Garças pousam nas cabeças dos búfalos e varam o rio como capitães do Paru. Os inquilinos da casa ligam o som e começam a fazer ginástica na varanda. Estou dentro de um filme amazônico de ficção, estrelado por Joelma, a eterna musa da Banda Calypso, e um exército de Carapanãs.

Leia também
Espaço Letras Livres, de Caxias, tem projeto para incentivar a leitura
Drag caxiense vai participar do festival MecaMaquiné
Luiza Barbosa, finalista do The Voice Kids, é a solista do concerto da Orquestra da UCS

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros