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Opinião31/10/2019 | 07h00Atualizada em 31/10/2019 | 07h00

André Costantin: intimidade com Deus

Há algo de muito estranho na avenida portuária de Almeirim, à vista da proa do Gaia

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O Gaia risca a foz do Paru e reentra no Amazonas. Antes de tomar o rumo de volta a Santarém, o barco segue a jusante para abastecer em Almeirim – a cidade é um balizador moral para os navegantes; dali em diante, na direção de Belém, o caminho é sitiado por piratas.

Chegamos à noitinha. Atracamos ao lado de um barco metálico, cuja plataforma bem pode abrigar uma centena de bois – o novo ouro do Eldorado amazônico. Há algo de muito estranho na avenida portuária de Almeirim, à vista da proa do Gaia. Não sei explicar o que é.

No dia seguinte, subindo o Amazonas, ao tentar acessar a margem esquerda – Oliviero quer visitar um reduto de criação de abelhas – o barco encalha no relevo de uma imprecisão, situada entre o fundo raso e a leitura desatenta dos sinais de navegação. Começa uma faina a bordo, que, embora vivida no minúsculo teatro do Gaia, não deixa de traduzir a angústia crucial de qualquer embarcação, em todos os lugares ou tempos.

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Em manobras para sair da armadilha, sentimos um choque, surdo, talvez um tronco submerso. Saltamos na água, algo que se deve evitar nessas longitudes e remansos do Amazonas, povoado por peixes elétricos e arraias. Cinco ou seis pares de braços forçando o casco preso ao lodo, mais a voadeira, tracionando pela frente, e o Gaia desencalhou.

Dois dias depois estamos parados, derretendo no sol a pino de um estaleiro periférico de Santarém. A hélice do Gaia, afetada no episódio do encalhe, precisa ter sua geometria ajustada. Mas antes de soarem as pesadas marteladas na peça, passam-se horas vazias. Ali perto está uma grande lancha de aço, batizada “Because of Jesus”. Desço e vou sondar o lugar.

Operários simpáticos e falantes vergam as tábuas de um barco em reforma, com o nome do profeta Oséias. Outros dois cascos de madeira jazem por ali: “Jornada da Fé” e “Jesus é a Solução”. Busco abrigo na sombra de uma parede em ruínas, observado por uma iguana, imóvel, na poça de um esgoto.

Ocorre o estranhamento de Almeirim. Naquela cidade, infestada de motocicletas, ninguém – mulher, homem, velho ou criança –, absolutamente ninguém, usa capacete. Uma lei própria. Lembro do nome da balsa boiadeira que, lá, nos deu costado: “Deus acima de todos”. Triste ar do tempo. Não por acaso, o mantra intestinal do presidente da nação.

A hélice do Gaia repousa num toco, solitária. Nada se move ou acontece. Passam as horas ao sol. Leio no casco de outra gaiola amazônica atracada nesse grande pátio de cordialidade e caos: “Intimidade com Deus”.

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