André Costantin: Amazônia cabocla - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião03/10/2019 | 07h00Atualizada em 03/10/2019 | 08h25

André Costantin: Amazônia cabocla

As tradições e sabedorias dos povos nativos da Amazônia continental são valores tão ou mais preciosos do que as minas de ouro ou os minérios que o mundo ambiciona

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Retorno de uma viagem da qual é difícil voltar, como um filme ou conto que, depois do fim, vai misturando sonhos à nossa realidade por dias, semanas, talvez por toda a vida. Embarcado no Gaia, uma típica “gaiola amazônica”, percorri um fragmento daquele misterioso mundo de águas do norte do Brasil.

Do encontro das águas do Tapajós e Amazonas, na fachada de Santarém, seguiram-se dois dias de navegação batida pelos ventos do grande rio da Terra, até o Gaia mirar a foz do rio Paru, e, dali, seguirmos corrente acima. Entramos no universo suspenso das palafitas, onde o povo caboclo adaptou e reinventou uma fantástica arquitetura – e modo de vida – das palafitas.

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Mas antes do relato da viagem nestas crônicas, penso sobre essa Amazônia pouco visível, difusa: a Amazônia cabocla. A visão externa ou panorâmica da região amazônica nos remete, dos livros escolares ao imaginário midiático, à Amazônia das densas florestas e das iconografias indígenas.

De fato, as tradições e sabedorias dos povos nativos da Amazônia continental são valores tão ou mais preciosos do que as minas de ouro ou os minérios que o mundo ambiciona, mais que as vastas terras queimadas e sacrificadas ao “agro” – este ambíguo deus do subdesenvolvimento nacional.

Dos complexos extratos vegetais das plantas à diversidade de línguas, das sabedorias sociais e alimentares até aos delicados elos perdidos entre homem e natureza, as etnias e culturas indígenas são depositárias dos segredos da grande floresta – a verde-nebulosa do planeta. Os nativos são, em uma visão cósmica, habitantes e herdeiros de um inconsciente do mundo; os possíveis tradutores dos conhecimentos acumulados da região que está no topo da megadiversidade do planeta.

Na epopéia humana da região amazônica, entretanto, coube aos povos caboclos e ribeirinhos – em cuja mistura étnica está a matriz fundadora do indígena – exercer na vida cotidiana e no confronto com a ocupação branca, autodeclarada “civilizada”, a mediação possível entre acervos existenciais tão distintos: povos nativos X colonizadores.

O caboclo, este tipo humano híbrido de contornos móveis, que vara o país de norte a sul, sem status étnico, de voz baixa, é o homem-geral amazônico. É a menina cabocla que se equilibra na ponta da canoa ou na tábua da palafita, num balé; é o caboclo que sobrevive e opera a vida na mata ou na cidade; é a cozinha cabocla, mediadora dos gostos e saberes ancestrais da floresta. É ele, o caboclo, uma presença definidora da Amazônia.

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