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Opinião24/10/2019 | 07h30Atualizada em 24/10/2019 | 08h34

André Constantin: João e o jacaré

A cada dia o réptil se expunha um pouco mais, pois também ele costumava observar João indo e voltando nas rotinas do rio

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 João, caboclo ribeirinho, saiu cedo na sua canoa de “rabeta” – pequeno e versátil motor de popa com haste e hélice na extremidade, tão popular naquela região amazônica como é o Fusca nas ladeiras de Ouro Preto ou nas colônias de Nova Petrópolis – e foi, como sempre, sondar os peixes nas margens do caudaloso Paru – seu rio, casa, estrada, berço e, por certo, sepultura.

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Talvez, naquele dia, fisgaria o tucunaré matreiro que já lhe enganara algumas vezes, no canal do Cachorro Queimado, rio acima. Ou algum Pirarucu distraído – o peixe-cobra, que no mercado de Santarém é limpo e aberto em filés de até 15 ou 20 quilos, aos olhos da multidão.

Margeando rio acima, ao abrigo do vento, João notou a presença discreta, porém cada vez mais familiar, de um Jacaré, grande, imóvel, na borda do igarapé, mergulhado a poucos centímetros da lâmina d’água. A cada dia o réptil se expunha um pouco mais, pois também ele costumava observar João indo e voltando nas rotinas do rio.

Só que o gesto do Jacaré, naquele dia, foi interpretado de outro jeito. João lançou-lhe um olhar estranho, atravessando o ar denso que paira sobre as águas, desde o Gênesis: “Cuida, camarada, que hoje, na volta, se tu estiveres aí ainda, assim... sou capaz de.”

Passa a manhã, passa João de volta. Entreolharam-se outra vez. Fim da tarde, sobe novamente a rabeta. Em uma hora, novo retorno da canoa, sem o Tucunaré. Só um Surubim para o gasto e o consolo de uma dezena de piranhas pretas, grandes, irascíveis, boas para um ensopado. Cessa o motor; a canoa encosta a remo. O Jacaré sente ainda o calor do sol repousado nos três metros de sua couraça.

João empunha a espingarda e coloca o cano quase na água, no meio dos olhos da caça. “Talvez não devesse” – pensou. “É até proibido, coisa da lei; mas não é um caboclo aqui que vai fazer a diferença, nem este jacaré, nós dois neste fim de mundo. No mais, eu vou comer ele, não é pra couro, nem venda”. Hesitou. Veio-lhe o olhar do bicho; julgou por demais íntimo. E premiu o gatilho.

O animal sentiu uma agulhada na cabeça, ficou tonto; aos poucos a imagem de João foi borrando. Mal sentiu os golpes de facão, que completaram o serviço do caboclo. Na manhã seguinte, a notável carcaça estava ainda estendida na canoa, a poucos metros do Gaia, atracado desde a véspera no vilarejo de palafitas. João nos convidou para comer o Jacaré, no almoço, assado na brasa, em família. E foi então que ouvi nuances deste breve relato, que compõe a história universal do homem no mundo.

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