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Opinião01/10/2019 | 07h00Atualizada em 01/10/2019 | 08h21

Adriana Antunes: por mais abraços

O problema é que não costumamos olhar o abraço como uma forma de contato mais séria, então não damos muita importância para ele

Em meio a essa cultura individualista e hipercompetitiva que nos afasta cotidianamente uns dos outros, há uma necessidade que sentimos e que passa despercebida, principalmente quando estamos ansiosos, inquietos, deprimidos. Talvez no fundo, a gente precise apenas de um abraço. Ser abraçados, acarinhados, aceitos, acolhidos faz tão bem para a alma e para o corpo. O problema é que não costumamos olhar o abraço como uma forma de contato mais séria, então não damos muita importância para ele. Além disso, depois que crescemos paramos de abraçar. Aliás, abraçamos pouco as pessoas conhecidas e nunca abraçamos desconhecidos. Ué, mas se ele não é tão sério assim, porque temos restrições agora?

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Quando somos fisicamente envolvidos pelos braços de alguém recriamos, parcialmente, o ambiente seguro do útero materno. Isso significa que reagimos ao toque. A pressão suave e quente acalma nosso interno, relaxa nosso corpo, aquieta nossa mente. Dias atrás, quando estava chegando para dar aula fui surpreendida pelo pessoal do CVV, que trabalha com a questão do suicídio, e depois da entrega do material gráfico, fui calorosamente abraçada. E me entreguei àquele abraço acolhedor dado por uma pessoa que nunca vi na vida. Ela me abraçou com afeto e eu retribui. Foi uma experiência mágica. Afinal, em meio à corrida do dia a dia, das contas, dos desencontros, das frustrações, dos medos, da solidão, do agito da vida, eis que de repente tudo se acomoda dentro de um abraço. Isso porque não podemos olhar o abraço apenas em termos físicos. Há nele um poder de consolar e confortar. Quando um abraço é dado de verdade, ele oferece proteção. Funciona como se fosse um gesto exterior que indica estar disponível para compreender o outro. Há gentileza e generosidade em quem abraça de modo genuíno. É como se recebêssemos a informação de que a pessoa que está nos abraçando agirá devagar, delicadamente, sem julgamentos e terá paciência para descobrir qual é o nosso problema, além de ver tudo sob a luz da bondade.

Abraçar e se deixar ser abraçado é uma arte da convivência. Está muito além daqueles abraços superficiais que são apenas um mero estilo social eletivo. Nesses momentos, eu prefiro um aperto de mão. Às vezes o abraço se torna muito mais íntimo que o sexo, pois envolve entrega. Em relacionamentos maduros e bondosos os parceiros são generosos um com o outro, acolhendo-se mutuamente em seus medos e regressões. Para amar outra pessoa é preciso ser generoso e se adaptar a ela. É provável que tenhamos errado inúmeras vezes tentando nos entender e entender o outro. Talvez aí resida o nosso erro, às vezes é preciso apenas acolher e dar tempo ao tempo, para si e para o outro, com menos mente e mais coração.

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