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Opinião06/09/2019 | 16h53Atualizada em 06/09/2019 | 16h53

Tríssia Ordovás Sartori: Não é não

Às vezes tenho a impressão de que acordei no século passado. Ou no retrasado

Tríssia Ordovás Sartori: Não é não Fábio Panone Lopes / especial/especial
Foto: Fábio Panone Lopes / especial / especial
Trissia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

É certo que exercitar a tolerância traz benefícios para quem a conquista, mas estamos vivendo em tempos difíceis. Às vezes tenho a impressão de que acordei no século passado. Ou no retrasado. 

Leio sobre um adolescente negro de 17 anos amarrado, amordaçado e torturado a chibatadas em um supermercado de São Paulo em pleno 2019. Vejo uma apresentadora de televisão dando conselhos no estilo “como segurar um marido”, como se saída de revistas femininas dos anos 1990. Escuto homens influentes tentarem desmerecer outro homem porque a mulher dele — inteligente e respeitada em sua comunidade — é considerada feia. 

Gente, desde quando feiura é argumento para tentar ganhar uma discussão? Se fosse no colégio, se fosse com nossa filha, com uma pessoa próxima, não seria legal. Mas, em rede (inter)nacional provoca até risos e ganha adesão de — fico pasma! — outras mulheres! Ainda bem que vivemos em tempos da quarta onda feminista, com manifestações espontâneas de mulheres do mundo todo dispostas a combater abusos de todos os tipos, gerando movimentos revolucionários como o #Me Too e #DesculpaBrigitte. Umberto Eco, pouco antes de morrer, deu uma entrevista dizendo que a internet dava voz aos imbecis. Felizmente não são só eles os que têm voz.

Já as reações à beleza ou à idade da primeira-dama francesa não são raras e, pior, são sintomáticas. A antropóloga Mirian Goldenberg, da qual sou fã, traz uma triste constatação embasada em anos de estudos. Diz que homens são avaliados por poder e dinheiro e mulheres pela aparência e pelo comportamento. Desta forma, quando envelhecem, elas se sentem invisíveis. Já eles se sentem mais poderosos. E que tal a reafirmação ser feita a partir de comentários machistas, como se fosse uma espécie de ritual de defesa da masculinidade?

Por falar em afirmação sexista, dá para mensurar o desserviço da declaração da tal apresentadora de que não se pode “negar fogo para o marido, porque se a gente nega fogo, ele vai procurar em outro lugar. Na Bíblia fala isso, sabe, que a gente não pode negar fogo”? Ela proclamou esse absurdo em rede nacional, num programa de tevê – e imagino que o tenha feito porque acredita nisso. Em 2019. Isso num país com índices vergonhosos de violência contra a mulher, onde estupros são cometidos, essencialmente, no ambiente doméstico em que meninas e mulheres estão inseridas. Ou seja, o estrago do “não negar fogo” é gigantesco.

Nós não estamos aqui para agradar a ninguém, seja a mãe, a chefe ou o marido – e haja terapia para nos dar consciência do nosso papel no mundo. O corpo e as regras sobre ele são nossas e sexo sem vontade, definitivamente, passa longe dessa escolha. 

Quero dormir e acordar em outro mundo, mais igualitário, porque viver nesse está bem difícil.

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