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Opinião06/09/2019 | 16h18Atualizada em 06/09/2019 | 16h18

Nivaldo Pereira: nosso céu invertido

Agora, Brasil, com Netuno dissolvendo tuas categorias e revelando tuas distorções, quem sabe possas assumir o que és

Nivaldo Pereira: nosso céu invertido Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Sol em Virgem, outro aniversário teu, Brasil. Eu queria te dar parabéns, mas não consigo. Está duro encarar mais um ano sob as fumaças delirantes de Netuno encobrindo teu Sol. O que aconteceu contigo, Brasil? Sei, Netuno dissolveu a fina camada de civilidade que nos mantinha em relativa tolerância. Revelou-se nossa enorme insensatez. Pior, revelou-se a violência autoritária que sempre marcou nossa história, antes oculta sob uma precária maquiagem de cordialidade. Quem sabe precisemos disso, desse choque de realidade crua, para pensarmos num outro modelo de país. Ah, a virginiana ordem impressa como lema em tua bandeira... Cadê ela, nesse caos? Será efeito do teu céu invertido? Talvez o leitor não conheça essa história. Preciso contá-la.

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Tudo está exposto no ótimo livro A Formação das Almas, do historiador José Murilo de Carvalho. Logo após o golpe que proclamou a República, em 1889, tornou-se urgente criar uma bandeira como símbolo máximo do novo governo, diferente da bandeira imperial. Primeiramente, surgiu uma bandeira que imitava a dos Estados Unidos, com listras verdes e amarelas e estrelas reunidas num quadrilátero. Mas esse pendão não agradou a ala dos positivistas, de orientação francesa. Coube ao artista positivista Décio Villares (depois criador do monumento a Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, e do busto deste em Caxias do Sul) o desenho da bandeira atual.

No ideário positivista de preservar o passado, o novo estandarte mantinha o retângulo verde e o losango amarelo do modelo imperial, inserindo ao centro o círculo azul e a faixa branca com o lema Ordem e Progresso. Na verdade, o lema positivista dizia: ‘O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. Mas achou-se que o amor era subjetivo demais para constar num símbolo coletivo, e ele caiu fora. (Ai, Brasil, perdemos ali o amor; ficamos com uma ideia imposta de ordem e progresso!).

A frase gerou polêmica, assim como o céu de estrelas do círculo, que representaria as constelações posicionadas para o Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889. Motivo da reação: o desenho do céu estaria invertido, como num espelho! Nossa bandeira ostentaria um equívoco científico! Em vez de corrigir o erro, os defensores do desenho acusaram os críticos de “falta de patriotismo” e alegaram que uma bandeira é um símbolo e, portanto, não deve se prender rigorosamente à realidade. E pronto: passamos a retratar nossos estados num céu de estrelas invertido...

A polêmica do céu errado durou alguns anos, até ser posta de lado por problemas mais imediatos. Decretos federais justificam que as estrelas devem ser consideradas na perspectiva de um observador situado fora da esfera celeste. Ou seja, nosso céu simbólico é aquele visto por alguém em outra galáxia!

E aqui estou, Brasil, tentando ler símbolos para entender tuas contradições. Essa informação do céu da bandeira, de nos percebermos a partir de um olhar de fora, ressoa na posição do Sol em teus mapas astrológicos. Primeiro houve o mapa do descobrimento, no entardecer do dia 22 de abril de 1500, com o Sol taurino poente, indicando uma identidade construída a partir das relações externas. E por séculos fomos apenas uma colônia de Portugal, não um país.

Aí veio o mapa da independência, no entardecer do dia 7 de setembro de 1822, com o Sol poente em Virgem. Outra vez nossa identidade como nação se desenha a partir de fora. Somos o que supomos ser pelo olhar alheio. Somos o máximo quando o mundo assim nos reconhece. E somos ralé quando nos comparamos com outros países. Essa tendência projetiva também aparece quando, num olhar virginiano discriminador, atribuímos os problemas do país aos que não seguem nossa visão de ordem.

Agora, Brasil, com Netuno dissolvendo tuas categorias e revelando tuas distorções, quem sabe possas assumir o que és: um país que ainda não sabe se aceitar. Se tua lógica parece invertida, essa loucura coletiva bem pode te despertar para o real. Tomara.

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