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Opinião27/09/2019 | 16h59Atualizada em 27/09/2019 | 16h59

Nivaldo Pereira: a luz da poesia

A poesia libra a vida, porque pode basear-se na essência radiosa do humano mesmo nas piores tempestades

Nivaldo Pereira: a luz da poesia Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Sol em Libra, primavera no sul, dia e noite balanceados na duração. Libra quer dizer balança. E há em português o verbo librar, pouco usado hoje, substituído que foi por equilibrar. Mas é correto dizer: eu libro, tu libras, nós libramos. Em Libra, devemos librar: suspendermo-nos no ar da paz, acima dos conflitos, e pairar na luz da conciliação; oferecer arte como resposta ao ódio e criar beleza contra a escuridão.

Primeiro signo coletivo, Libra vem lembrar que somos humanos sociáveis, aptos, portanto, a agir em conjunto em prol das mais elevadas facetas de nossa complexa natureza. E estas querem união, partilha, amor, ética, justiça e respeito. Sim, o melhor de nós sempre há de buscar a luz e a paz.

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Falemos, pois, da luz em tempos de escuridão. Evoquemos os poetas, cujo dom de acender lanternas, mesmo nas situações mais sombrias, sempre ameaçou os tiranos e outros inimigos do amor. “Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”, lembra a canção Choro Bandido, de Chico Buarque. Aqui o compositor faz alusão ao grego Tirésias, o mais célebre profeta cego da mitologia. Esse mito costuma ser associado ao signo de Libra, em sua dimensão de lidar com opostos e colocar-se no lugar do outro.

Conta o mito que, certa feita, ao ver duas serpentes copulando, Tirésias matou uma delas, justamente a fêmea e, por isso, foi transformado em mulher por sete anos. Tirésias viveu literalmente a experiência de ser outro/outra. Já novamente homem, foi convidado a julgar uma pendenga do casal soberano do Olimpo, Zeus e Hera, que discutiam sobre quem sentiria maior prazer no sexo, se o homem ou a mulher. Tirésias disse que era a mulher, o que dava a entender que o homem seria o agente promotor desse prazer. Isso desagradou Hera, que, de raiva, o cegou. Como compensação, Zeus proveu Tirésias do dom da profecia e de uma extensa longevidade. E ele se tornou um ponderado sábio, um vidente preciso, embora cego.

Voltemos aos poetas e suas luzes. Nos escuros tempos da ditadura militar no Brasil, o amazonense Thiago de Melo, por conta de poemas considerados subversivos, foi encarcerado numa solitária. Numa certa hora, quando a luz diurna incidiu nas frestas da cela estreita, ele viu rabiscada numa parede a seguinte mensagem: “Faz escuro mas eu canto / porque a manhã vai chegar”. Que surpresa! Eram versos dele, publicados em 1965! O poeta se percebeu duplamente alegre: seus versos tinham dado alento a quem estivera ali antes e, de volta, renovavam a convicção do valor de sua arte.

Em 1945, com o mundo em depressão pela grande guerra, Carlos Drummond de Andrade publicou o poema Nosso Tempo, falando de um “tempo de homens partidos”, de “gente cortada” e muletas. Mas, ainda que a morte parecesse absoluta, algo luminoso se insinuava com força no poema, como nos versos: “A escuridão estende-se mas não elimina / o sucedâneo da estrela nas mãos. / Certas partes de nós como brilham!”. Vendo além da treva, o poeta se dispunha a nos guiar numa caminhada por entre brumas rarefeitas: “o ar da noite é o estritamente necessário / para continuar, e continuamos”.

A poesia libra a vida, porque pode basear-se na essência radiosa do humano mesmo nas piores tempestades. A poesia, assentada numa estética, sintoniza com o signo de Libra, qual um sopro do espírito a nos fazer ver acima e adiante. Paulo Leminski ilustra isso na exatidão de um hai-cai: “luxo saber / além destas telhas / um céu de estrelas”. Ah, a máxima poesia de Libra já se fez carne entre nós na figura do libriano Vinicius de Morais, que na vida foi amor da cabeça aos pés.

E hoje, quando imperam o desalento e a desunião, o ar primaveril de Libra insiste em espalhar poesia, desde os trinados dos sabiás às flores baldias das macegas. Então, que a poesia nos desperte para a humana união, como nos versos de João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos”.

E de novo, agora num imperativo libriano, devo terminar o texto falando sobre seguir de mãos dadas.

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