Gilmar Marcílio: meu inimigo - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião27/09/2019 | 11h13Atualizada em 27/09/2019 | 13h22

Gilmar Marcílio: meu inimigo

Ao perceber que o interesse sobre o que estou dizendo é menor do que o revelado pela interação em redes sociais, imediatamente me calo

Ao longo dos anos fui capaz de domar (relativamente) um traço negativo da minha personalidade: a impaciência. Consigo deixar que o tempo faça seu trabalho, sem tanto interferir. Treino-me para esperar, não fazendo do desejo de antecipação uma característica que me define. Não é fácil, e ao menor descuido posso estar novamente com taquicardia, vivendo adiantado. Porém, confesso meu total fracasso frente a uma situação que tem se tornado cada vez mais corriqueira e, parece, muitos já nem se incomodam mais. Mas eu sim, e como! Remeto-me às pessoas que dialogam comigo interagindo com seu celular. Olhando, postando, digitando. Meu Deus, que aflição! Não sou poupado desse suplício nem quando partilhamos as refeições. O que se passa no seu aparelho tem status de urgência. Sempre, sempre. Cometo meus pecadilhos, confesso. Por não utilizar o whatsApp, falo muito com amigos. Mas antes de atender, quando isso se revela imprescindível, peço desculpas e solicito a permissão de quem está na minha companhia. É o mínimo de bom senso e civilidade. Agora, tentar capturar a atenção de quem não larga desse “fascinante” objeto, é batalha perdida desde o começo.

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Tenho tentado algumas estratégias, com alguns resultados exitosos. Ao perceber que o interesse sobre o que estou dizendo é menor do que o revelado pela interação em redes sociais, imediatamente me calo. Buscam contornar o desconforto, dizendo que podem repetir cada frase que eu disse, como se fosse suficiente capturar o som da minha voz, sem ter internalizado a intenção. É um desafio continuar com o bate-papo, pois é como se estivesse me dirigindo a uma parede: as palavras ecoam no vazio. Será que é tão difícil parar diante do outro, ouvir com respeito e acuidade o que está sendo dito? Sei que esse comportamento está virando regra, mas não para mim. Simplesmente não consigo. Continuo acreditando que a linguagem precisa do olhar para se tornar plena e transmitir o que realmente quer dizer. O que a maioria de nós está fazendo é fingir que se importa com a conversa, quando pretende mesmo é ficar encerrado no mundo virtual a maior parte do tempo possível. Estaremos nos tornando tão sem graça assim? Há que se pensar.

Você não tem a sensação de que o telefone passou a ser quase um inimigo ou, em alguns casos, um rival? Já não conseguiríamos viver sem ele, é fato inconteste. Mas adorá-lo acima de todas as coisas é um caso clínico. Unam-se e protestem os que ainda pretendem se salvar. Há tempo. Por enquanto.

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